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Revista CH / Revista CH - 2009

Peixes de aquário: animais de estimação ou pestes?

A criação de peixes ornamentais é uma atividade de lazer muito popular, mas constitui uma ameaça aos ecossistemas marinhos e de água doce. Quando libertados na natureza, os peixes de aquário podem gerar impactos ambientais e até prejudicar a saúde humana.

Por: André de Magalhães, Newton Barbosa e Claudia Jacobi

Publicado em 29/12/2009 | Atualizado em 29/12/2009

Peixes de aquário: animais de estimação ou pestes?

O peixe amazônico cará-papa-terra ('Geophagus cf. albifrons') foi descoberto recentemente em rios do estado de São Paulo, e provavelmente foi introduzido nessa nova região por meio de soltura por aquaristas.

A criação de peixes ornamentais em aquários – o aquarismo – é uma das atividades de lazer mais praticadas no mundo, mas também é uma crescente fonte de disseminação de peixes não-nativos em corpos d’água de diversos países. Essa introdução de espécies de outras regiões por aquaristas pode ter desastrosos impactos sobre ecossistemas marinhos e de água doce e até na integridade física das pessoas. Peixes de aquário nunca devem ser libertados no meio ambiente. Para se desfazer de seus peixes, os aquaristas devem seguir as recomendações feitas por instituições da área ambiental: doá-los, vendê-los ou, se não for possível, sacrificá-los com anestésicos ou congelamento.

A prática de confinar peixes para fins contemplativos é antiga. Acredita-se que a história do aquarismo remonte aos antigos egípcios e romanos, mas foi na China e no Japão que essa prática se desenvolveu, entre os anos 970 a 1279 do atual calendário. O aquarismo chegou à Europa no século 17, à América do Norte no século 18 e ao Brasil no final do século 19.

Nas últimas décadas, a criação de peixes marinhos e de água doce em aquários experimentou muitos avanços técnicos e ganhou adeptos em todo o mundo. Hoje, o mercado mundial de peixes ornamentais movimenta, por ano, cerca de US$ 3 bilhões, e a indústria de equipamentos e acessórios para aquarismo, incluindo a literatura especializada, ultrapassam os US$ 15 bilhões.

Os Estados Unidos representam um exemplo desse crescimento. Naquele país, a aquariofilia é a terceira atividade de lazer mais praticada pela população, perdendo apenas para a fotografia e a filatelia (coleção de selos). Uma pesquisa realizada em 1994 revelou que mais de 10 milhões de lares norte-americanos tinham aquários. No Japão, estima-se que existam cerca de 1,2 milhão de aquaristas. Nesse país da Ásia, a prática da aquariofilia está relacionada a crenças e superstições de que “ter um aquário traz sorte”. No Brasil, esse passatempo ainda tem poucos apreciadores, em comparação com Estados Unidos e Japão: estima-se que mais de 500 mil aquários residenciais estejam espalhados pelo território nacional.

Estudos sobre essa atividade mostraram que a presença de aquários nos lares proporciona melhor qualidade de vida para as pessoas. Alguns resultados positivos do aquarismo seriam: desenvolvimento do senso de responsabilidade, da iniciativa e da confiança em crianças, redução no nível de estresse em adultos e melhoria do bem-estar físico e psicológico em idosos (inclusive benefícios como tratamento suplementar para a doença de Parkinson).

Infelizmente, muitas pessoas que praticam essa atividade não cuidam de modo adequado de seus aquários, por diversos motivos. O interesse dos aquaristas pode ser afetado por problemas como o crescimento exagerado de algumas espécies, entre elas o pacu-de-barriga-vermelha; o comportamento agressivo de outras, como o oscar ou o apaiari, que atacam outros peixes colocados no mesmo aquário; e a morte de exemplares, decorrente de falhas de manutenção.

Manter um aquário de maneira adequada exige alguns conhecimentos e cuidados básicos em relação a limpeza, condições da água – temperatura, potencial hidrogeniônico (pH), oxigenação e renovação do meio –, alimentação dos peixes e outros. Ao desistir da atividade, muitos aquaristas, por compaixão, relutam em sacrificar seus peixes e os libertam em ambientes naturais, por não saber que essa atitude não é correta.

Estudo realizado pelo biólogo Ian Duggan, do Instituto de Pesquisas Ambientais dos Grandes Lagos no Canadá, sugeriu que os peixes ornamentais mais populares, comumente disponíveis no comércio mundial, são introduzidos nos ambientes naturais mais facilmente e em maior quantidade do que as espécies raras. Esses peixes mais comuns são os ciclídeos (acarás e mbunas), os poecilídeos (guppies, platis, molinésias e espadinhas), os caracídeos (tetras, piabas e lambaris), os ciprinídeos (carpas, kinguios, barbos e paulistinhas), os belontídeos (peixes-de-briga, peixes-do-paraíso, colisas e tricogasters) e os loricarídeos (cascudos).

Pesquisadores da agência Pesquisas Geológicas dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) também mostraram que, naquele país, a liberação no ambiente de peixes de aquário é a segunda maior causa de introdução de espécies não-nativas. Esse tipo de invasão biológica é mais grave no estado da Flórida. Em Taiwan, na Ásia, pesquisadores das universidades de Kaohsiung e Taiwan, e do Zoológico de Taipei, descobriram que 20 das 26 espécies de peixes não-nativos presentes nos ambientes naturais daquele país foram introduzidas devido a solturas de aquaristas.

No Brasil, a maioria das informações sobre introduções de peixes diz respeito a fugas de empresas de piscicultura, sendo raros os relatos de solturas por aquaristas. Mesmo assim, há registros de detecção de espécies ornamentais em áreas onde antes não viviam.

 

André Lincoln Barroso de Magalhães,
Newton Pimentel de Ulhôa Barbosa

Programa de Pós-graduação em Ecologia, Conservação
e Manejo de Vida Silvestre, Instituto de Ciências Biológicas,
Universidade Federal de Minas Gerais
e Claudia Maria Jacobi
Departamento de Biologia Geral, Instituto de Ciências Biológicas,
Universidade Federal de Minas Gerais

 

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