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Revista CH / Revista CH - 2007

Entrevista: Bertha Becker – Revolução para a Amazônia

Bertha Becker defende desenvolvimento que impeça destruição da diversidade da região

Por: Andréa Gouthier

Publicado em 01/03/2007 | Atualizado em 24/09/2009

Região de maior biodiversidade do planeta, onde está localizado o sistema fluvial mais extenso e de maior massa líquida da Terra e a maior floresta pluvial tropical, a Amazônia é hoje foco de múltiplos e conflitantes interesses. Para articular as diversas demandas sobre a região, o governo brasileiro tem contado com a ajuda da geógrafa Bertha Becker, professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desde 1970, ela se embrenha floresta adentro para ouvir índios, empresários, peões, religiosos e representantes do governo e compreender os vários olhares sobre esse complexo território de 5,22 milhões de km 2 . Hoje seu nome é uma referência mundial, quando o assunto é Amazônia.

Convidada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2004, para subsidiar a gestão integrada dos projetos para a Amazônia, da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped), Becker defende uma política de consolidação do desenvolvimento da região que impeça a destruição de seu bem maior: a diversidade do patrimônio natural e cultural.

Atualmente, a geógrafa dedica-se a estratégias de implementação dessa política, acentuando a importância de uma revolução científica e tecnológica que inclua uma logística específica para a Amazônia. Tal logística, em sua opinião, deve-se centrar nas cidades, no fortalecimento institucional e na regionalização, identificando as diferentes áreas dentro da extensa região, com suas potencialidades e limitações.

Nesta entrevista, Bertha Becker fala de suas propostas. 


A senhora diz que o ambientalismo preservacionista, hoje, já não consegue atender às demandas por desenvolvimento dos atores sociais da região. Como o governo federal poderia conciliar uma política de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, evitar a degradação do patrimônio natural?
É preciso superar a falsa dicotomia entre desenvolvimentismo e ambientalismo. O desenvolvimentismo, cujo auge ocorreu durante o Programa de Integração Nacional (PIN), entre 1970 e 1985, provocou intensos conflitos sociais e ambientais na região. A percepção da crise ambiental no planeta gerou forte pressão internacional e nacional contra essa política. A preocupação social com a conservação da natureza e o temor econômico de que a natureza se torne um recurso escasso convergiram para um modelo ambientalista. Ora, os processos sociais são bem mais complexos do que faz supor tamanha polarização. O desenvolvimentismo não exige a destruição da natureza e a conservação do meio ambiente não requer sua preservação total, imobilizando o crescimento econômico. O que ocorreu na Amazônia é que o ambientalismo excessivamente preservacionista da década de 1990 esgotou-se como modelo para a região por uma dupla razão: primeiro, porque não conseguiu barrar a expansão da agropecuária capitalizada; segundo, porque a conscientização crescente da população amazônica, que demanda melhores condições de vida, resultou na criação de mercado de trabalho e renda e, portanto, no uso do seu patrimônio natural. Por essas razões, o desafio para o desenvolvimento da Amazônia é conceber e implementar um modelo que utilize o patrimônio natural sem destruí-lo, atribuindo valor econômico à floresta, de forma que ela possa competir com as commodities . A ciência, a tecnologia e a inovação são fundamentais para implementação desse novo modelo, contribuindo para organizar a base produtiva regional e gerar riqueza e trabalho. Não se trata de ‘tecnologismo’, mas de geração e uso do conhecimento de múltiplas disciplinas.

Para explorar a biodiversidade, é necessário um controle sobre o seu acesso. Como está hoje a questão da biopirataria na região e o que poderia ser feito para evitar esse problema?
A biopirataria existe, mas não é o maior problema. Uma das grandes questões na Amazônia é a ausência do Estado e das instituições responsáveis por fazer cumprir a lei. Uma ação positiva seria superar as ações setoriais isoladas, promovendo sua articulação em arranjos institucionais coletivos. Foi o que tentou o grupo interministerial de trabalho ao buscar asfaltar a rodovia Cuiabá-Santarém. A ação seria muito mais eficaz, contudo, se ela fosse feita diretamente no território. Outra forma seria envolver as populações locais na vigilância. Há que se pensar mais, certamente, para passar de discursos a ações concretas.

Em relação a projetos de preservação ambiental com capital estrangeiro, a senhora alerta para o risco de privatização e internacionalização da Amazônia pela compra e o controle de grandes áreas de terra. O que poderia ser feito para evitar isso?
Idealmente, deveríamos ter um desenvolvimento autóctone, isto é, implementado por brasileiros e visando a benefícios para a população regional e nacional. Parece que, face à globalização, o país tem que mudar as estratégias, inserindo-se no mundo para não ser excluído, como ocorreu com a África, mas assegurando a autonomia das decisões quanto ao modo de realizar essa inserção.

Em 2004, a senhora realizou um estudo para a gestão integrada dos projetos para a Amazônia da Seped/MCT, visando subsidiar as políticas de ciência e tecnologia para a região. Quais propostas poderia destacar?
Foram duas as propostas centrais. A primeira referiu-se à gestão do conhecimento; no caso, os projetos científicos implementados na Amazônia pela Seped – LBA [Experimento em Larga Escala da Biosfera e Atmosfera na Amazônia], Geoma [Rede Temática de Pesquisa em Modelagem Ambiental da Amazônia] e PPBio [Programa de Pesquisa em Biodiversidade] – visando alcançar complementaridade e eliminar redundâncias. A segunda foi uma proposta de ação: implementar cadeias tecnoprodutivas para uso da biodiversidade desde o âmago da floresta às indústrias, como importante forma de gerar trabalho e riqueza sem destruir as florestas. Um exemplo que me parece viável é a construção dessa cadeia a partir da Floresta Nacional do Tapajós [Pará], onde um significativo número de pequenos produtores extrai óleo de andiroba e de outras árvores e vende o produto em pequenos vidros. Um centro de pesquisa localizado em Santarém ou Itaituba, voltado para a formação dessa cadeia, poderia ser um grande estímulo inicial para a área, que vai contar com a rodovia Cuiabá-Santarém asfaltada.


Andréa Gouthier
Especial para Ciência Hoje/DF 

 

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