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Revista CH / Revista CH - 2005

O novo papel das moscas

Usos científicos de dípteros ajudam a mudar imagem negativa desses insetos

Por: Leonardo Gomes e Cláudio José Von Zuben

Publicado em 01/10/2005 | Atualizado em 25/09/2009


A mosca mais comum nas habitações humanas ( Musca domestica ) pode transmitir às pessoas microrganismos causadores de doenças (fotos: Guilherme Gomes)
No grande mundo dos insetos, as moscas ocupam o quarto lugar em número de espécies. Elas sempre foram vistas como responsáveis por problemas de saúde pública, por carregar em seus corpos vários microrganismos que podem causar doenças muito graves no homem. Nos últimos tempos, porém, elas vêm exercendo um novo papel: seu uso na elucidação de crimes e em terapias larvais vem fazendo com que sejam vistas com outros olhos por pesquisadores e mesmo pela população.
 
As moscas são insetos da ordem Diptera, que também inclui os mosquitos. Com mais de 210 mil espécies descritas, os dípteros formam a quarta maior ordem de insetos, depois dos coleópteros (besouros), lepidópteros (mariposas e borboletas) e himenópteros (abelhas, formigas e vespas). Moscas e mosquitos apresentam metamorfose completa (ovo, larva, pupa e adulto) e distinguem-se dos demais insetos alados por ter apenas um par de asas (daí o nome Diptera, que significa ‘duas asas’). O par mantido é o anterior – o posterior transformou-se em pequenas estruturas denominadas halteres ou balancins, que funcionam como órgãos de equilíbrio.
 
São conhecidas cerca de 150 mil espécies de moscas (cerca de 70% do total da ordem Diptera), que vivem em praticamente todos os ambientes do mundo e cujas larvas e adultos consomem quase todo tipo de alimento, desde sangue, excrementos e carne em decomposição até madeira, frutas e néctar. O aparelho bucal das moscas é adaptado para lamber o alimento, para picar e sugar ou apenas para sugar.
 
Do ponto de vista médico, os dípteros são os insetos mais importantes. Entre as moscas de interesse médico-sanitário destacam-se as das famílias Muscidae (que inclui a mosca doméstica) e Calliphoridae (as moscas-varejeiras). Algumas espécies alimentam-se de sangue, como as mutucas (família Tabanidae), e sua picada pode infectar o homem com diversas doenças, mas outras, como a mosca doméstica e as varejeiras, também podem transmitir enfermidades como febre tifóide, disenteria, poliomielite e outras, embora não sejam hematófagas. A ocorrência, a distribuição e a predominância desses dípteros em áreas metropolitanas são fatores de grande importância em saúde pública.
 
A transformação de ambientes naturais em áreas urbanas e rurais modifica de modo radical a flora e a fauna locais. A maioria das espécies nativas é extinta, mas algumas se adaptam às transformações, passando a se beneficiar do material orgânico acumulado nessas áreas. É bem conhecido que certas espécies de dípteros são capazes de se adaptar às condições ecológicas criadas pelo homem no processo de urbanização. Essa dependência é chamada de sinantropia, e pode-se calcular o índice sinantrópico para diferentes áreas ecológicas. O cálculo baseia-se na comparação de coletas de moscas feitas na cidade, na zona rural e na zona das florestas. O índice varia de +100 a -100: valores positivos indicam alto grau de sinantropia e negativos revelam intolerância às alterações ecológicas decorrentes da urbanização.
 
Entre todas as moscas, as mais conhecidas são as moscas domésticas. O nome mosca doméstica refere-se à espécie conhecida cientificamente como Musca domestica , pertencente à família Muscidae. Tomando como domésticas as espécies que ocasionalmente entram nas residências, podem ser incluídas, nesse grupo, Stomoxys calcitrans calcitrans (uma das moscas hematófagas mais freqüentes nas zonas rurais), Fannia canicularis (conhecida como ‘pequena mosca doméstica’) e Fannia scalaris (chamada de ‘mosca das latrinas’).
 
As moscas-varejeiras, como as da espécie Chrysomya albiceps , põem seus ovos em corpos de animais (e até de pessoas) em decomposição
Várias espécies de moscas podem ser encontradas, com maior ou menor freqüência, no interior de residências, em quartos, cozinhas, mercados, feiras livres etc. Alguns pesquisadores observaram que, em condições normais de vida, a mosca doméstica pode transmitir diversos agentes patogênicos, como vírus, bactérias do gênero Rickettsia (causadoras de febre tifóide e outras doenças), alguns protozoários, outras bactérias e ovos de helmintos (vermes parasitos).
 
Certas moscas-varejeiras (família Calliphoridae) também podem ser consideradas moscas de ambientes urbanos e de áreas domésticas. Embora de tamanho semelhante ou pouco maior que o da mosca doméstica (entre 6 e 9 mm), elas têm diferenças marcantes: apresentam cores metálicas (azul, verde, violeta e cobre) e alimentam-se de matéria animal em decomposição.


Leonardo Gomes e
Cláudio José Von Zuben ,
Laboratório de Entomologia Forense,
Departamento de Zoologia,
Universidade Estadual Paulista (em Rio Claro).
 

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