Ferramentas Pessoais
a a a
Revista CH / 2012

Supermercados: espaços de cultura científica?

Termos científicos têm sido usados para agregar credibilidade a diversos produtos e estimular seu consumo. Mas essa prática também é um modo de divulgar a ciência, como mostra ensaio publicado na CH.

Por: Luis Felipe Trotta e Moema Vergara

Publicado em 10/04/2012 | Atualizado em 10/04/2012

Supermercados: espaços de cultura científica?

Ir ao supermercado pode contribuir para a formação da cultura científica, já que a ciência presente em vários produtos é usada para atrair a atenção dos consumidores. (foto: Sxc.hu/ kirobuch)

A ideia de ciência como atividade que traz benefícios e progresso para a humanidade é bem disseminada. Por isso, quando um produto industrial utiliza termos científicos em sua embalagem ou em sua propaganda, os consumidores são levados a crer que aquele produto é inovador ou apresenta vantagens em relação aos concorrentes. O uso da ciência – ou do conceito de ciência existente na sociedade – para estimular o consumo, por ampla variedade de produtos, torna os supermercados e locais afins divulgadores coadjuvantes de ciência?

A ciência está tão difundida na sociedade que uma simples ida ao supermercado pode suscitar uma série de questões relacionadas a esse campo do conhecimento. Nas prateleiras vemos grande quantidade de produtos que apresentam, nos rótulos e nas propagandas, diversas referências a termos científicos. É o caso daqueles que dizem ter vitaminas e sais minerais, lactobacilos vivos e até elementos químicos como zinco, selênio, potássio e ferro, a exemplo de certos pudins, pães e achocolatados.

O uso de termos científicos visa chamar a atenção do consumidor e convencê-lo de que um produto é melhor que os demais

O uso dessas palavras visa chamar a atenção do consumidor e convencê-lo de que um produto é melhor que os demais por ser enriquecido com determinados elementos, incluir novas tecnologias ou produzir efeitos mais precisos.

Um sabão em pó alega ter uma tecnologia que remove manchas mais que os outros, pois é multiação. Há iogurtes que dizem conter Dan regularis, bacilo que ajuda o intestino, pastilhas para vasos sanitários que afirmam ter bicarbonato de sódio em sua fórmula e muitos outros exemplos.

De modo mais ou menos intenso, a ciência presente em vários produtos é usada como forma de propaganda. Muitos desses conceitos são de entendimento relativamente fácil para boa parte do público, mas isso não acontece com outros, o que pode gerar uma mistificação da ciência.

Supermercado
As prateleiras dos supermercados estão repletas de produtos que fazem referência a termos científicos em seus rótulos como forma de propaganda. (foto: Flickr/ astro1991 – CC BY 2.0)

Já que essas mercadorias são veículos de termos científicos, poderiam os supermercados ser considerados espaços de divulgação da ciência, ou lugares que contribuem para a formação de uma cultura científica?

Devemos ressaltar que o objetivo, aqui, não é verificar a validade dos efeitos alegados pelos produtos ou a veracidade dos processos tecnológicos supostamente usados em sua fabricação, e menos ainda checar se de fato contêm os elementos e compostos anunciados. O que procuramos estabelecer é a relação entre público, ciência e marketing, entendendo como esse tripé está associado do ponto de vista da divulgação da ciência.

Divulgação na prateleira

Quando vê produtos com termos científicos, o consumidor – quer os entenda ou não – torna-se consciente da existência dessas palavras e de sua circulação na sociedade. Portanto, de alguma forma, os termos científicos nas embalagens divulgam algo no campo da ciência, ainda que de forma bem menos complexa e intencional do que as instituições voltadas especificamente para essa divulgação.

Nos supermercados, não se trata de transformar a ciência em produto, e sim de usá-la para auxiliar a promoção de um produto

Alguns podem ver isso apenas como estratégia de propaganda: o ‘marketing científico’. No entanto, o princípio básico dessa modalidade de marketing, segundo a cientista social Sarita Albagli, é o de que o conhecimento – e sobretudo o discurso que o contém – também é um produto. Nesse caso, o público deve ser seduzido pelo discurso e absorver a ideia de que consumir um conhecimento (ir a feiras científicas ou museus, adquirir publicações ligadas à ciência etc.) é bom para ele.

Nos supermercados, não se trata de transformar a ciência em produto, e sim de usá-la para auxiliar a promoção de um produto. No marketing científico, os recursos mercadológicos são aplicados para estimular o consumo do próprio conhecimento e de produtos relacionados às ciências.

No caso do uso de termos científicos para atrair o consumidor, ocorre o inverso: o conhecimento científico é aproveitado no fazer mercadológico. Com base nisso, podemos entender o supermercado e outros locais afins como espaços coadjuvantes de divulgação da ciência.

Você leu apenas o início do ensaio publicado na CH 290. Clique no ícone a seguir para baixar a versão integral.
PDF aberto (gif)


Luis Felipe Dias Trotta e
Moema de Rezende Vergara

Museu de Astronomia e Ciências Afins,
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

Ações do documento
blog comments powered by Disqus
novobannerch.jpg  

pchael
Assinatura digital

acervo digital

Clique aqui para informações

Suplemento cultural

banner sC

Quer publicar na CH?

Se você é pesquisador e gostaria de submeter um artigo para publicação na Ciência Hoje, confira antes nossas instruções para autores.

Acesso aos PDFs

A cada nova edição da CH impressa, alguns artigos e seções estarão disponíveis para todos os leitores. Esses itens estarão identificados com o ícone PDF aberto. Os outros artigos e seções (identificados com o ícone PDF fechado) em breve estarão disponíveis para os assinantes da CH.

RSS

RSS gif

Seja notificado sempre que for publicada na CH On-line uma nova matéria da CH impressa. Saiba mais sobre RSS.

Sua opinião

Caro leitor, gostaríamos de contar com sua colaboração, respondendo a uma breve pesquisa para aprimorarmos ainda mais a qualidade da revista Ciência Hoje. Na edição deste mês: 1) Qual o artigo de que você mais gostou? 2) Qual o artigo de que você menos gostou? Deixe suas respostas nesse fórum ou envie-as para cienciahoje@cienciahoje.org.br. Obrigado por sua participação!

 
Parceria: 

Ciencia Hoy