Ensino de música: há salas adequadas?
A partir de 2012, o ensino de música nas escolas de nível básico é obrigatório. Na teoria, a medida é difícil de ser criticada, mas na prática... Na seção ‘Opinião’ da CH, especialistas falam sobre algumas das dificuldades a serem enfrentadas.
Por: Aloísio Leoni Schmid, Guilherme Romanelli, Thiago Corrêa de Freitas, Letícia de Sá Rocha e Márcio Henrique Carboni
Publicado em 27/02/2012 | Atualizado em 27/02/2012
Para professores e pesquisadores da UFPR, a falta de espaços com acústica adequada é um dos principais problemas para a educação musical obrigatória. (foto: Universidade Lusíada de Lisboa/ CC BY-NC-SA 2.0)
A obrigatoriedade do ensino de música nas escolas de nível básico entra em vigor no início deste ano letivo. Dentro das aulas de artes, as crianças passarão também a aprender música. É o ideal de Villa-Lobos se concretizando? Na teoria, sim. Na prática, o Brasil esbarra em um considerável déficit de professores capacitados para ensinar música, mas esse não é o único desafio.
Além de discussões sobre como a música deverá ser ensinada, as escolas dificilmente terão espaços especializados para a educação musical, seja para ouvir música, tocar instrumentos ou cantar, e as questões acústicas parecem ser graves. Esse último problema será tratado aqui.
Se a construção e ampliação dos espaços destinados à educação básica ainda enfrenta dificuldades no Brasil, a funcionalidade dos já existentes também é, com frequência, deficiente. Os problemas da qualidade do ensino se originam em edifícios degradados ou originalmente não projetados para esse fim.
Quanto à adequação acústica das salas para ensino de música, destacam-se duas preocupações: a) isolamento acústico em relação aos ruídos externos; b) tratamento acústico adequado do interior dessas salas.
Condições especiais
Inicialmente, é preciso ressaltar que as especificidades de uma sala para aulas expositivas são diferentes daquelas de um espaço destinado ao ensino de música. As salas de aula usadas para a maior parte das disciplinas escolares devem primar por aquilo que, em acústica, se chama inteligibilidade da fala, ou seja, a possibilidade de entender bem todo o discurso do professor.
Problemas de comunicação são comuns, por exemplo, em escolas que carecem de forros especiais ou cortinas, materiais que, se usados adequadamente, podem reduzir de modo satisfatório a reverberação – caracterizada pela percepção de um prolongamento do som original, decorrente do confinamento do espaço e do predomínio de superfícies duras, nas quais o som se reflete.
Devido à reverberação, em espaços pequenos e sem materiais apropriados, os sons podem ficar ‘embaralhados’ e a voz do professor pode não ser entendida com clareza, dificultando a concentração dos alunos e, em consequência, o aprendizado.
No que se refere às particularidades da educação musical, é preciso considerar dois aspectos fundamentais: a apreciação (audição de repertório musical, em geral por meio de aparelhos de som) e a prática musical (interpretação e criação de música, com o uso de instrumentos musicais, da voz e de outros materiais).
Se o volume da sala for demasiado pequeno, ocorrerá falta de reverberação e um possível excesso de amplificação dos sons. Se a sala for revestida por materiais muito absorvedores de som, exigirá que os exemplos musicais sejam ouvidos no volume máximo do aparelho de som e induzirá alunos e professores a praticarem a música no limite de intensidade vocal ou instrumental.
Cabe destacar que o objetivo principal da educação musical é ampliar a capacidade auditiva dos alunos, o que inclui perceber como o som é projetado no ambiente e como o ambiente responde ao som. Isso requer a ajuda do professor.

Aloísio Leoni Schmid
Guilherme Romanelli
Thiago Corrêa de Freitas
Letícia de Sá Rocha
Márcio Henrique Carboni
Universidade Federal do Paraná (UFPR)

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