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Notícias / Ecologia e Meio Ambiente

Aquecimento global pode afetar satélites

Aumento da concentração de gases-estufa tem impacto sobre as camadas mais altas da atmosfera

Por: Bernardo Esteves

Publicado em 23/11/2006 | Atualizado em 14/10/2009


Derretimento de geleiras, extinção em massa de espécies, propagação rápida de doenças – as conseqüências do aquecimento global na superfície do planeta já são bem conhecidas. Agora, uma equipe internacional de cientistas mostra que o impacto poderá ser sentido também na alta atmosfera.

O sistema de posicionamento global (GPS) conta com informações enviadas por pelo menos 24 satélites em órbita da Terra para localizar com precisão qualquer ponto na superfície do planeta (arte: Nasa).

Caso as emissões de gases do efeito estufa continuem aumentando, a densidade das camadas mais altas da atmosfera pode diminuir, o que poderia afetar o desempenho de satélites usados nas telecomunicações e no sistema de posicionamento global (GPS). O alerta foi dado em artigo publicado na Science desta sexta.

A ameaça maior a esses equipamentos consiste na diminuição da densidade da termosfera – camada situada entre 90 e 800 quilômetros de altitude, na qual se situa a órbita de vários satélites. A contração das camadas superiores da atmosfera e a redução de sua densidade são uma das conseqüências do aquecimento global.

Paradoxalmente, uma contrapartida do aumento da temperatura da superfície terrestre é o resfriamento das camadas mais altas da atmosfera, graças ao aumento da concentração na atmosfera de dióxido de carbono (CO 2 ), um dos principais gases do efeito estufa. Esse fenômeno é observado em Vênus, cuja atmosfera é composta predominantemente por esse gás: nesse planeta, a troposfera (camada mais interna da atmosfera) é duas vezes mais quente que a da Terra, ao passo que a termosfera é de quatro a cinco vezes mais fria.

Efeito sobre os satélites
“Por um lado, uma diminuição da densidade da atmosfera diminuiria o arrasto atmosférico [a fricção do ar que aos poucos freia os satélites] e prolongaria sua vida orbital”, explica à CH On-line Jan Laštovicka, pesquisador do Instituto de Física Atmosférica da República Tcheca e autor principal do estudo. “Por outro lado, a contração da atmosfera pode aumentar a penetração da radiação e especialmente de partículas energéticas, que danificam os satélites.”

Além disso, o estudo afirma ainda que mudanças na ionosfera (situada entre 60 e 1000 quilômetros de altitude) podem afetar a propagação das ondas de rádio e o desempenho dos satélites de GPS e outros sistemas de navegação baseados no espaço.

Os efeitos do aquecimento global sobre as camadas mais altas da atmosfera haviam sido previstos já em 1989, mas não havia à época dados disponíveis para confirmar a tendência apontada. Ainda não há medições suficientes para caracterizar o impacto em longo prazo sobre essas camadas, mas aos poucos os dados disponíveis começam a compor um panorama de como elas têm sido afetadas.

O alerta da equipe de Laštovicka é preocupante, mas ele reconhece que o quadro atual não ameaça o bom funcionamento dos satélites. Caso esse patamar seja um dia atingido, ele esclarece que o processo pode ser revertido se a humanidade conseguir diminuir a emissão de gases de efeito-estufa na atmosfera – melhor não precisar pagar para ver.


Bernardo Esteves

Ciência Hoje On-line
23/11/2006

 

 
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