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Notícias / Biologia

Rumo a um anticoncepcional masculino

Injeção de proteína induz produção de anticorpos que tornam macacos inférteis por até dois anos

Por: Pedro Gomes Ribeiro

Publicado em 24/11/2004 | Atualizado em 07/10/2009





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Primata da espécie Macaca radiata , testada no estudo (foto: Georgia State University)

Os homens estão mais perto de controlarem sua própria fertilidade. É isso que aponta uma pesquisa feita nos Estados Unidos e na Índia com macacos da espécie Macaca radiata

. Os animais receberam uma vacina e, apesar de permanecerem sexualmente ativos, a maioria não fecundou as fêmeas. Quando as injeções foram interrompidas, também foi alto o índice dos machos imunizados que recuperaram a fertilidade.

 

Os resultados indicam que, no futuro, pode ser desenvolvida uma vacina similar que funcione em humanos. No entanto, há ainda um longo caminho a trilhar, pois apenas um pequeno número de primatas foi testado e, em alguns deles, não foi possível reverter a infertilidade dos animais.

 

O tratamento testado ‐ chamado imunocontracepção ‐ consiste em injetar no sangue dos animais uma proteína humana (a epina) que é produzida nos testículos de humanos e outros primatas. Essa proteína estimula a produção de anticorpos que inativam o esperma e tornam os animais inférteis. No entanto, os cientistas ainda não conseguem explicar por que isso acontece. No artigo que relata os resultados, publicado na Science

em 12 de novembro, os cientistas sugerem que a ligação dos anticorpos à epina pode impedir os espermatozóides de se libertarem do fluido seminal para fecundar as fêmeas.

 

Nos testes realizados na Carolina do Norte e em Bangalore, nove macacos receberam uma injeção com epina a cada três semanas. Dentre eles, sete apresentaram um alto índice de anticorpos e perderam a fertilidade por quase dois anos; os outros dois primatas que não obtiveram o mesmo resultado foram descartados da pesquisa. Cinco dos sete animais que não haviam conseguido fecundar as fêmeas recuperaram a fertilidade com a interrupção do tratamento; os outros dois permaneceram inférteis.

 

Para a bióloga Mônica Bucciarelli Rodriguez, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, o risco dessa vacina é alto. "Se nos poucos animais testados não foi possível comprovar a reversibilidade absoluta do tratamento de médio prazo, seu uso freqüente pode ser ainda mais perigoso." A cientista alerta que a imunização pode levar à infertilidade duradoura ‐ risco que os indivíduos que escolhem métodos contraceptivos temporários não desejam correr.

 

Uma solução mais segura seria, ao invés de estimular a resposta imune do organismo, injetar diretamente os anticorpos (esse método é denominado de imunização passiva). "O maior obstáculo é que a pesquisa para confirmar isso demanda muito tempo, além de ser muito cara", afirma Michael O’Rand, da Universidade Duke (EUA) e coordenador da pesquisa, em entrevista à CH On-line

.

 

A equipe espera que os resultados obtidos estimulem novos ensaios clínicos em busca de um contraceptivo masculino que não altere o nível hormonal ‐ a falta de novidades em pesquisas dessa área havia desestimulado novos testes. Novas pesquisas precisam ser feitas para confirmar a descoberta e continuar os avanços na área. O’Rand espera, agora, convencer agências governamentais ou privadas: "Estudos futuros dependem de financiamento", ressalta. 


Pedro Gomes Ribeiro
Ciência Hoje On-line
24/11/04

 
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