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Coagulação acelerada

Pesquisadores criam plaqueta artificial que, injetada no corpo, promete agilizar o processo de coagulação. O elemento postiço é aposta para conter sangramentos internos e externos em acidentes graves.

Por: Sofia Moutinho

Publicado em 18/02/2013 | Atualizado em 13/02/2014

Coagulação acelerada

Os pesquisadores norte-americanos criaram em laboratório uma plaqueta artificial que ajuda no processo natural de coagulação do sangue. (foto: Gary Meek)

Pesquisadores norte-americanos acabam de anunciar, durante o encontro anual da Sociedade Americana para o Progresso da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), em Boston, a criação artificial de uma plaqueta, elemento fundamental para a coagulação sanguínea. A molécula sintética foi desenvolvida pelos cientistas para acelerar esse processo e evitar a perda de sangue, que pode ser fatal em lesões graves, como as ocorridas em acidentes de trânsito e guerras.

O elemento artificial tem forma de disco, como uma plaqueta natural, e é feito com um polímero gelatinoso coberto de anticorpos também sintéticos. Esses anticorpos fazem com que a plaqueta mude sua forma e se transforme em uma espécie de rede que gruda nas lesões dos vasos sanguíneos e da pele.

A plaqueta sintética foi desenvolvida para acelerar a coagulação e evitar a perda de sangue, que pode ser fatal em lesões graves

A plaqueta só entra em ação quando existe um sangramento. Nessa ocasião, os anticorpos são ativados pela presença da fibrina, uma substância produzida pelo nosso corpo apenas quando existe uma lesão, justamente para coagular o sangue. Assim, não existe o risco de a plaqueta artificial formar coágulos onde não deve – o que poderia causar infartos, derrames e embolia pulmonar.

A formação da fibrina no local da lesão é uma das primeiras respostas do organismo quando há um sangramento. Ela cria uma espécie de emaranhado no tecido danificado onde outros elementos do sangue, como os glóbulos vermelhos e as plaquetas, ficam presos estancando o vazamento.

As plaquetas artificiais aceleram esse processo. Em forma de rede, elas aderem às fibrinas logo que estas aparecem e criam de imediato uma espécie de remendo na lesão. 

Plaqueta artificial
A imagem mostra uma coagulação natural (à esq.) e uma coagulação que recebeu a ajuda das plaquetas artificiais (à dir.). Em roxo está a fibrina sozinha e, em verde, as moléculas sintéticas que se ligam à fibrina e compõem um coágulo mais denso. (imagem: Ashley Brown)

A ideia dos pesquisadores é injetar as plaquetas artificiais no sangue de pessoas com sangramento para acelerar o processo de coagulação natural.

“Nossa premissa é simples: quanto mais plaquetas, mais rápida é a coagulação”, explica o líder do estudo, Thomas Barker, engenheiro bioquímico da Universidade Tecnológica da Geórgia. “Nós só estamos dando uma forcinha para um processo natural que já é eficiente, mas pelo qual não podemos esperar quando existe muito sangramento e a vida de alguém está em risco.”

Barker conta que teve a ideia de criar as plaquetas para ajudar soldados americanos em campo de batalha. “Muitos morrem porque estão sangrando longe de uma base médica ou porque têm um sangramento que não é visível”, diz. “Quando o sangramento é interno, você não tem como aplicar pressão para estancar o sangue.”

As plaquetas viriam a calhar nessas situações. O pesquisador conta que, no futuro, pretende desenvolver um dispositivo portátil do tamanho de um celular cheio de plaquetas artificiais que poderiam ser injetadas pelos próprios soldados quando necessário. “Você não precisa saber onde está o sangramento nem se há um sangramento, basta injetar as plaquetas que elas encontram o seu caminho e cumprem seu papel”, comenta Baker.

Experimentos com ratos mostraram que o uso das plaquetas artificiais acelerou em 30% o tempo de coagulação e diminuiu 40% da perda de sangue

Por enquanto, as plaquetas artificiais só foram testadas em ratos. Os experimentos com esses animais mostraram que o uso desses elementos acelerou em 30% o tempo de coagulação e diminuiu 40% da perda de sangue.

O pesquisador prevê que dentro de um ano deve iniciar os testes clínicos com humanos e que em cerca de seis anos a molécula artificial estará pronta para uso. A plaqueta também poderá ser usada para tratar doenças como a hemofilia, que é um distúrbio da coagulação do sangue.

Sofia Moutinho*
Ciência Hoje On-line

*A repórter viajou para Boston a convite da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS)

Este texto foi atualizado para incluir a seguinte alteração:
Ao contrário do que foi originalmente informado, as plaquetas não são mais consideradas células, porque não têm núcleo, embora sejam metabolicamente ativas. (13/02/2014)

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