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Alternativas sustentáveis

Um método inovador para a produção de diesel de origem vegetal e um dispositivo para gerar energia eólica em pequena escala estão entre os projetos contemplados com o Prêmio Jovem Cientista, que teve os vencedores anunciados nesta terça.

Por: Bernardo Esteves

Publicado em 26/10/2010 | Atualizado em 26/10/2010

Alternativas sustentáveis

Poluição em São Paulo: buscar saídas para os problemas urbanos e rurais do Brasil foi o desafio da 24ª edição do prêmio Jovem Cientista, que teve por tema “Energia e meio ambiente: soluções para o futuro” (foto: Henrique Cintra – CC 2.0 BY-NC-SA).

Desenvolver soluções energéticas e ambientais sustentáveis para o futuro do país: esse era o desafio proposto para os participantes da 24º edição do Prêmio Jovem Cientista. A escolha dos vencedores, anunciados na manhã de terça em Brasília, contemplou projetos criativos e originais desenvolvidos por estudantes de pós-graduação, de graduação e do ensino médio.

O vencedor do prêmio na categoria Graduado desenvolveu um método promissor para a produção de biocombustíveis. O premiado foi o químico industrial Leandro Alves de Sousa, doutorando em engenharia química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O trabalho foi realizado por ele sob a orientação de Victor Teixeira da Silva durante seu mestrado.

Leandro desenvolveu um método para a produção de um diesel de origem vegetal, capaz de ser usado como combustível em veículos movidos a diesel sem qualquer alteração no motor. Como matéria prima, podem ser usados óleos vegetais de natureza variada, como o obtido a partir da soja ou o óleo de cozinha usado para frituras.

O combustível gerado nesse processo não deve ser confundido com o biodiesel – que, embora também seja derivado de matéria prima vegetal, é obtido a partir de um processo diferente. Além disso, o biodiesel precisa ser misturado com diesel de origem mineral – para que ele fosse usado puro, seriam necessárias adaptações no motor. Atualmente, o diesel comercializado nos postos brasileiros inclui uma mistura de 5% de biodiesel.

O diesel de origem vegetal pode ser produzido usando a infraestrutura existente nas refinarias de petróleo 

“O uso atual do biodiesel não elimina a necessidade de uso de combustíveis fósseis e, portanto, não acaba com o problema de emissão de gases do efeito-estufa e nem com a competição por terra para produzir alimentos ou combustíveis”, disse o químico à CH On-line.

Junto com seu orientador, Leandro obteve um catalisador ideal (o carbeto de molibdênio suportado) para transformar óleos vegetais em combustível. A reação pode ser realizada usando a infraestrutura existente nas refinarias de petróleo – a produção de biodiesel, em comparação, requer a construção de uma planta própria.

Outra vantagem do método desenvolvido por Leandro é o fato de o combustível obtido não gerar glicerina – um subproduto gerado em abundância na produção de biodiesel que pode ser nocivo ao meio ambiente se descartado de forma inadequada.

Leandro continua aprimorando o método desenvolvido durante o mestrado. “No doutorado, estou estudando essa reação para torná-la mais eficiente e econômica.”

Jovens Cientistas 2010
Os ganhadores das três principais categorias da 24ª edição do prêmio Jovem Cientista: da esquerda para a direita, Leandro Alves de Sousa, Eduardo Façanha de Oliveira e Ricardo Castro de Aquino (foto: Adriano Machado).

 

Energia eólica em pequena escala

Na categoria Estudante do Ensino Superior, o Prêmio Jovem Cientista contemplou o estudo que desenvolveu um sistema de geração de energia eólica capaz de ser implantado em empreendimentos de pequeno porte ou mesmo em residências. O premiado foi Eduardo Façanha de Oliveira, estudante de graduação em engenharia elétrica na Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Sob a orientação do professor Demercil de Souza Oliveira Júnior, Eduardo desenvolveu dois tipos de conversores da energia eólica produzida por turbinas de pequeno porte. Um deles permite a recarga de baterias; o outro viabiliza a padronização da energia gerada para que o sistema seja interligado à rede elétrica.

Os equipamentos têm potencial para beneficiar tanto moradores de localidades de acesso remoto sem energia elétrica quanto usuários de áreas urbanas. “O uso desse sistema permite que uma família de classe média de quatro pessoas zere seus gastos com energia elétrica”, garante Eduardo.

O baixo preço é outra vantagem do equipamento desenvolvido pelo estudante. “O custo de um sistema para carregamento de baterias vai de R$ 1 mil a R$ 2 mil, incluindo a turbina eólica”, conta Eduardo. “Já o sistema para interligação à rede elétrica deve custar de R$ 2 mil a R$ 3 mil, porque tem uma potência um pouco mais alta e usa uma turbina maior”.

“O uso desse sistema permite que uma família de classe média zere seus gastos com energia elétrica”

O desenvolvimento do conversor para interligação à rede elétrica contou com o apoio de uma empresa, que deve comercializá-lo no futuro.

Eduardo também pretende dar sequência ao trabalho iniciado na graduação. “A busca de formas limpas e sustentáveis de energia é uma grande questão mundial”, avalia o estudante. 

“Por isso pretendo continuar trabalhando com energias renováveis, especialmente solar e eólica, que são as mais adaptadas à nossa realidade. Afinal, não faltam vento e sol no Nordeste – e nem praia e mulher bonita”, brinca.

Ônibus menos poluentes

Na categoria Estudante de Ensino Médio, por fim, o Jovem Cientista premiou o desenvolvimento de um filtro automotivo capaz de reduzir a poluição causada por ônibus e outros veículos movidos a diesel. O ganhador foi Ricardo de Castro de Aquino, ex-aluno do Centro de Ensino Médio 404, de Santa Maria (DF) – atualmente ele é aluno de graduação no Centro Universitário UDF.

Ricardo foi motivado por sua própria experiência pessoal. “Como sou dependente de ônibus, senti a necessidade de sanar ou tentar diminuir os malefícios da fumaça emitida pelos ônibus”, afirmou ele na cerimônia de anúncio dos ganhadores do Jovem Cientista.

Um estudante do ensino médio desenvolveu um filtro capaz de reduzir a poluição causada por ônibus 

Ricardo trabalhou sob a orientação dos professores de química e geografia do seu colégio. “O desenvolvimento levou um ano e meio”, contou ele à CH On-line. “Fizemos doze protótipos, testados e aprimorados em ônibus do Distrito Federal.”

O filtro desenvolvido por ele mostrou-se extremamente competitivo se comparado aos similares disponíveis no mercado. O equipamento é capaz de reter até 86% dos gases poluentes emitidos pelos ônibus, tem manutenção menos onerosa que a dos concorrentes e – mais importante – é muito mais barato. “Os filtros que existem hoje não custam menos que 800 reais”, estima Ricardo. “O meu sai por menos de R$ 60.”

Outra vantagem ambiental do filtro desenvolvido por ele é a possibilidade de reciclagem do material filtrado. “A fuligem retida pode ser reaproveitada na recauchutagem de pneus”, explica.

O invento foi patenteado e já suscitou o interesse de empresas dispostas a produzi-lo em grande escala. “Certamente no próximo ano veremos esse dispositivo em uso”, aposta o jovem inventor.

Mais cientistas e engenheiros

A 24ª edição do Jovem Cientista teve um número recorde de inscritos – 2.158. Na avaliação de Carlos Alberto Aragão, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que promove o prêmio desde 1981 em parceria com a Fundação Roberto Marinho e a Gerdau, o prêmio é importante para atrair mais estudantes para as carreiras científicas e tecnológicas.

“Educação de qualidade desde a primeira infância é um grande desafio que teremos que enfrentar se quisermos formar mais cientistas e engenheiros”, afirmou ele em coletiva à imprensa na cerimônia de anúncio dos vencedores. “Os problemas que temos pela frente exigem cada vez mais um enfoque multidisciplinar, e os projetos contemplados têm todos esse viés.”

Bernardo Esteves (*)
Ciência Hoje On-line
(*) O jornalista viajou a Brasília a convite da Fundação Roberto Marinho

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