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 PERFIS - HERMAN LENT

O telegrama de 1946
Antagonismo pessoal embasa acusações de subversão

Após 39 anos de trabalho em Manguinhos, Herman Lent foi acusado de conspiração subversiva nos laboratórios e teve sua aposentadoria decretada à força e seus direitos políticos cassados em 1970. Na origem das acusações de comunismo a ele e outros cientistas de Manguinhos, está um telegrama enviado ao então senador Luis Carlos Prestes.

O documento apoiava a atitude do político, que defendia que as forças militares norte-americanas deixassem o Norte do país, onde haviam se instalado por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Embora sua mensagem nacionalista fosse clara, o telegrama foi distorcido ao ser associado à postura comunista defendida por Prestes em outros discursos, e foi usado como evidência de acusação.

O mais insistente divulgador da versão subversiva do telegrama foi o professor Olympio da Fonseca Filho, diretor de Manguinhos por breve período e posteriormente presidente da comissão de inquérito instaurada no Instituto Oswaldo Cruz com a chegada de Rocha Lagoa.

Lent atribui a 'perseguição' a um antagonismo anterior estabelecido entre ele e Olympio. Ambos haviam prestado consultoria técnica para fundamentar um inquérito judicial. Olympio assessorava o juiz que arbitrava sobre a rejeição dos livros escolares de biologia adotados até então ("naquele tempo, chamava-se História Natural", lembra-se Lent). Sob a acusação de conterem muitos erros, o biólogo Cândido Mello-Leitão, que participara da Comissão do Livro Didático, condenou as obras escritas por Valdemiro Potti, professor do Colégio Pedro II.

"Logo depois de condenar os livros de Potti, Mello-Leitão publicou o seu próprio", conta Lent. "O Potti, que sabia que eu era uma pessoa combativa, me pediu que fosse seu assistente. Mello-Leitão morreu no meio do caminho e o caso foi arquivado, mas ficou a questão do Olympio. Eu não tinha nada de pessoal com ele, mas ele se irritou por eu ter tomado a defesa de uma pessoa que ele achava que estava fora do nosso meio, que era um professor de curso secundário simplesmente e nada mais."

Na comissão de inquérito instaurada no Instituto Oswaldo Cruz, Olympio perseguiu Lent, mas não encontrou qualquer prova para incriminá-lo. Em 1978, ele declara ao Jornal do Brasil que sua comissão apurou o óbvio: não havia um foco de comunismo em Manguinhos.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
julho/2001

 

 
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