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Êxodo de cientistas
Diretor autoritário esvazia Manguinhos com acusação de comunismo
O movimento militar de 1964 instaurou inquéritos que visavam a apurar subversão, corrupção e o emprego dos recursos financeiros em Manguinhos. Foram afastados oito chefes de seção e o diretor, substituído por Francisco de Paula da Rocha Lagoa, ex-aluno da Escola Superior de Guerra. "Era um colega, embora tivéssemos a noção de que seus conhecimentos eram muito precários", comenta Herman.
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Lent observa foto com sua turma do curso de aplicação do Instituto Oswaldo Cruz (foto: Raquel Aguiar) | | | José Jurberg revela que Rocha Lagoa era motivo de pilhéria. Certa vez, um estagiário que duvidava de sua capacidade fez uma preparação errada para testá-lo. Observando ao microscópio, o diretor elogiou o preparo. "Esse estagiário saiu do laboratório e foi para a Escola Nacional de Saúde Pública", conta Jurberg.
Certa ocasião, reunido com colegas no laboratório, o novo diretor discorreu sobre seus planos, que afirmava se basearem na "orientação do Pentágono". Professor Herman não pôde conter uma gargalhada. "Ficou clara a distância entre os conceitos que ele tinha, absurdos, e o que imaginávamos para uma instituição científica", diz ele.
Rocha Lagoa discriminava os que não lhe eram simpáticos, cortando recursos e impedindo financiamentos. Em fins de 1964, a imprensa falava em 'terror cultural'. O Dr. Walter Oswaldo Cruz -- filho do fundador do Instituto -- teve seu laboratório praticamente destruído e seus alunos dispersos. Apesar das pressões exercidas, os cientistas continuaram a trabalhar, publicar os resultados de suas pesquisas e participar de congressos e sociedades científicas.
Os cientistas repeliam publicamente os desmandos de Rocha Lagoa e protestaram contra a discriminação que sofriam junto a instituições científicas e órgãos de informação. Foram eliminados dos conselhos e direções técnicas e perderam a possibilidade de orientar e formar jovens pesquisadores. Como conseqüência, muitos pesquisadores saíram do país em busca de condições materiais e ambientes de trabalho livres.
No início de 1965, os inquéritos foram concluídos, sem a constatação de nenhum delito. "Ninguém tinha nada", assegura o professor Herman. "Não pertencíamos a partidos políticos, mas inventavam situações. De vez em quando, aos sábados, nos reuníamos no laboratório e comíamos uma feijoada, um churrasco, uma coisa assim. Isso era considerado uma reunião comunista." A mesma suspeita recaiu sobre Lent em outra ocasião, quando realizava no hospital exames de rotina com outros colegas.
Em junho de 1965, o ministro do planejamento, Roberto Campos, recebeu vários cientistas que puderam expor a necessidade de criação de um Ministério da Ciência, como forma de proteger as instituições de ciência e tecnologia. Apesar disso, no ano seguinte, Rocha Lagoa apontou 16 cientistas que seriam intimados a prestar contas sobre a acusação de 'conspirar em seus laboratórios'. Como motivo, o diretor alegou justamente a defesa da criação de um Ministério da Ciência, posteriormente incorporado à lei que estabeleceu a reforma administrativa.
Raquel Aguiar Ciência Hoje/RJ julho/2001 |