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 PERFIS - MAURÍCIO DA ROCHA E SILVA

Bradicinina viabiliza anti-hipertensivos
Estudo de discípulo permite aplicação farmacêutica da substância descoberta em 1948

A bradicinina foi aceita no exterior logo na década de 1950, mas no Brasil o professor Jaime Pereira, catedrático de farmacologia na USP, defendia que a substância era uma mistura de histamina e adenosina. O filho de Maurício lembra-se do pai dizer que Pereira pensou errado e fez o experimento errado para conseguir o resultado que queria.

Rocha e Silva fotografado em seu trabalho diário

Poucos anos depois, Rocha e Silva foi reprovado no concurso para professor da Faculdade de Medicina da USP. Gastão Rosenfeld, que colaborou na descoberta da bradicinina, acredita que houve sabotagem. A vaga em aberto era ocupada por Jaime Pereira, que Rosenfeld acreditava querer reservar para seu genro, que teria ninguém menos que Rocha e Silva como concorrente. Pouco antes da aposentadoria compulsória em 1980, Rocha e Silva concorreu à mesma vaga e foi aprovado com louvor, mas jamais tomou posse. Na ocasião, disse à banca examinadora que estava cumprindo uma promessa feita a si mesmo de voltar a concorrer quando a vaga reabrisse.

Os estudos sobre a bradicinina avançaram na década de 1950, após os estágios de Rocha e Silva em Estocolmo no laboratório de Ulf von Euler, Nobel de fisiologia ou medicina em 1970. Nos anos seguintes, os estudos progrediram em seu laboratório no Instituto Biológico. Rocha e Silva liderava o grupo de cientistas que conseguiu a purificação da bradicinina por meio de métodos cromatográficos, o que aumenta sua atividade em cerca de mil vezes.

A colaboração do discípulo Sérgio Henrique Ferreira na década de 1960 foi fundamental para tornar a bradicinina a base dos medicamentos anti-hipertensivos. Ele descobriu que o veneno de jararaca continha, além da enzima que promovia a liberação da bradicinina no organismo, também uma substância que potencializava sua ação -- chamada BPF ou fator potencializador da bradicinina.

Por suas características químicas, a bradicinina é destruída rapidamente demais no organismo para exercer ação medicamentosa eficaz. Por isso, foram desenvolvidos agentes que alongassem sua atividade. Na década de 1970, surgiram produtos que agem impedindo que a bradicinina produzida pelo organismo seja inativada. O captopril, cujo nome comercial é Capotem, foi o primeiro medicamento anti-hipertensivo desenvolvido a base de bradicinina e é usado ainda hoje com eficiência.

Os anti-hipertensivos movimentam bilhões de dólares por ano na indústria farmacêutica. Para os pacientes, eles representaram a superação de uma série de restrições e, sobretudo, o aumento da expectativa de vida. Hoje, um hipertenso medicado pode levar uma vida praticamente normal.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
novembro/2001

 

 
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