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 PERFIS - MAURÍCIO DA ROCHA E SILVA

A descoberta da bradicinina
Vasodilatador poderoso foi identificado por Rocha e Silva e colaboradores em 1948

A bradicinina foi descoberta em meio a estudos sobre a histamina, que Rocha e Silva pesquisava havia anos -- escreveu inclusive o verbete sobre a substância no Grande tratado de farmacologia experimental (1966), de Springer Verlag. A histamina existe sob forma inativa nos tecidos de mamíferos. É liberada após traumas físicos, por ação de substâncias químicas e principalmente antígenos -- substâncias que geram resposta imunológica.

Gastão Rosenfeld e Wilson Texeira Beraldo colaboraram
com Rocha e Silva na descoberta da bradicinina

A bradicinina é um peptídeo encontrado nas plaquetas (células anucleadas presentes no sangue e responsáveis pela coagulação) de onde é liberado pela ação da tripsina (enzima secretada pelo pâncreas) e de certos venenos de serpentes. Tanto a histamina quanto a bradicinina causam vasodilatação -- aumento do calibre dos vasos sangüíneos devido ao relaxamento das fibras musculares lisas que constituem suas paredes. Assim, o fluxo sangüíneo aumenta e a pressão arterial é reduzida.

A descoberta da bradicinina se dá no Instituto Biológico em 1948. Rocha e Silva teve colaboração de Wilson Teixeira Beraldo, então professor da faculdade de medicina da USP, e Gastão Rosenfeld, que deixara o Instituto Butantã e de lá trazia amostras do veneno da jararaca.

O veneno foi misturado a sangue de cachorro e então testado em intestino isolado de porquinhos-da-índia. Os cientistas pretendiam testar a histamina, comum em venenos de cobras, e por isso esperavam uma contração da musculatura lisa. O sangue, entretanto, não apresentava histamina e não teve efeito sobre a cobaia. A contração só ocorreu em um segundo teste.

A contração era violenta e desaparecia em poucos minutos, o que levou Rocha e Silva a atribuí-la a uma nova substância batizada de bradicinina (bradys = lento, kinesis = movimento). O primeiro relato da descoberta saiu em 1949 no número inaugural da revista Ciência e Cultura, da recém-criada SBPC (imagem ao lado). "A toxina do veneno não constitui o agente primário da ação farmacológica sobre a musculatura lisa", escrevem os autores, "mas age indiretamente liberando, do próprio intestino isolado, um princípio ativo (auto-farmacológico) o qual constitui o agente do efeito observado, isto é, da contração da musculatura lisa do intestino isolado." No ano seguinte, a descoberta foi publicada no American Journal of Physiology.

Substâncias auto-farmacológicas ou simplesmente autacóides são produzidas pelo próprio organismo e não atuam no próprio local de produção. Entre elas, incluem-se os hormônios produzidos em órgãos específicos e que atuam a distância -- como insulina, tiroxina e cortisona. Autacóides também incluem substâncias produzidas difusamente por todo o organismo. O primeiro autacóide desse tipo a ser identificado foi a angiotensina -- de propriedades vasoconstritoras --, e o segundo, a bradicinina.

A princípio, Rocha e Silva usou a expressão hormônios dos tecidos para definir os autacóides, mas o termo não foi aceito. Autacóide revelou-se um conceito perdurável para definir substâncias auto-farmacológicas (termo introduzido por Sir Henry Dale).

Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
novembro/2001

 

 
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