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Heinz Schild foi convivência fundamental para o posterior direcionamento da trajetória científica de Rocha e Silva. Schild revelou a importância da aplicação de técnicas de estatística em bioensaios para a resolução de problemas insolúveis sob abordagem simplesmente bioquímica, avanço que o brasileiro considerou fundamental para o estudo de polipeptídeos ativos no sangue, como é o caso da bradicinina.

 
 PERFIS - MAURÍCIO DA ROCHA E SILVA

Uma vida dedicada à pesquisa
Rocha e Silva se destacou no Instituto Biológico e Universidade de São Paulo

Maurício Oscar da Rocha e Silva nasceu no Rio de Janeiro a 19 de setembro de 1910. Passou a infância em uma casa sem água encanada ou energia elétrica numa pequena praia na Ilha do Governador, acessível apenas por mar. Recebeu a primeira influência intelectual do pai, o psiquiatra João Olavo da Rocha e Silva, leitor ardente que deixou manuscritos sobre a evolução e temas médicos. Maurício lecionava em colégios enquanto se preparava sozinho para os exames de ingresso da faculdade de medicina.

Foi aprovado em quarto lugar entre mais de 500 candidatos, mas o curso foi decepcionante -- classes com mais de 300 alunos e professores que eram "criaturas fossilizadas, muito além de sua idade produtiva". Maurício foi muito influenciado pelo professor Álvaro Ozório de Almeida, que teve a singular iniciativa de pesquisar em um laboratório montado na sua própria residência.

Durante o curso de medicina, Maurício lecionava em colégios para garantir o sustento. Pensou em ser físico e chegou a publicar o livro de contos Bonecos de Porcellana. Costumava dizer entre risos que optou pela ciência após ler Goethe. Formado, mudou-se para São Paulo e freqüentou por alguns anos o Instituto Biológico antes de ser contratado, em 1937. Entre as diversas pesquisas que desenvolveu, comprovou a toxicidade do alecrim (Holocalyx glaziovii), que causava uma doença bovina comum.

Rocha e Silva foi um dos primeiros brasileiros a receber bolsa de estudos da Fundação Guggenheim. Na University College londrina estudou com Heinz Schild. Conheceu o precursor dos estudos sobre histamina, Henry Dale, em uma reunião da Royal Society. Em Toronto manteve contato com o pai da teoria do estresse, o húngaro Hans Selye. Em uma reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência, discutiu a importância da criação de uma sociedade similar no Brasil.

Ainda na Inglaterra soube do ataque do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, aos centros de pesquisa. A ciência pura passava a ser considerada coisa de desocupados e os institutos deveriam se concentrar na produção de soros e vacinas. No retorno ao Brasil em 1947, Rocha e Silva descobriu a bradicinina e se engajou no projeto da criação da SBPC.

Rocha e Silva cumprimenta Zeferino Vaz numa festa em Ribeirão Preto

Chefiou a Seção de Bioquímica e Farmacodinâmica do Instituto Biológico até 1957, quando assumiu o departamento de farmacologia da faculdade de medicina da USP em Ribeirão Preto (FMRP-USP) a convite de Zeferino Vaz. Teve papel fundamental no estabelecimento da pós-graduação, mas foi aposentado compulsoriamente em 1980. Retomou então a pintura, hobby a que se dedicara brevemente nos anos 1960. Cerca de vinte telas estão dispersas entre a família, sobretudo paisagens e também um auto-retrato.

O filho de Maurício foi a última pessoa com quem falou em vida. "Eram cerca de 8 horas da manhã do dia 19 de dezembro de 1983. Ele me telefonou e disse apenas: venha depressa, estou com muita falta de ar." A empregada da casa disse que ele falou com o filho ao telefone, voltou para a cama e respirou por mais um minuto.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
novembro/2001

 

 
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