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Kerr e as abelhas - um caso antigo
Geneticista tornou-se um dos maiores incentivadores da atividade apícola no Brasil
" Com 8 anos de idade ganhei uma colméia de abelhas sem ferrão", lembra-se Warwick Kerr. "Foi curioso perceber mais tarde que desde pequeno eu já sabia que elas existiam, enquanto muitos pesquisadores só foram conhecê-las na faculdade." Kerr conta que o interesse por esses insetos surgiu na infância. Foram eles o objeto de seu trabalho de maior impacto -- a determinação de castas em abelhas Mellipona (sem ferrão).
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Kerr e um auxiliar separam abelhas adultas para serem colocadas em colméias com mel, pólen e favo de cria (foto: Edgar S. da Rocha) | | |
Em 1956, após receber prêmios pelo estudo, Warwick Kerr foi à África estudar a produção de mel naquele continente, para mais tarde aplicar seus conhecimentos ao Brasil. Quando retornou, trouxe 141 rainhas africanas (da espécie Apis mellifera scutellata, altamente produtiva e agressiva), das quais 51 sobreviveram. Rainhas e operárias foram postas em quarentena em uma floresta de eucalipto de Camacuã (SP), para que apenas as menos agressivas fossem escolhidas.
As colméias eram fechadas por uma malha que permitia a passagem de operárias, mas não de rainhas. Um agricultor percebeu que as operárias estavam perdendo pólen ao entrar nas colméias. Como as abelhas estavam mostrando boa atividade, acreditou que retirar as malhas não causaria problema. Trinta abelhas enxamearam -- se reproduziram -- e os pesquisadores perderam o controle sobre elas. Com o incidente, pessoas foram picadas (alguns casos foram fatais) e muitos apicultores abandonaram a atividade de criação, o que fez a produção de mel cair. Kerr acabou sendo responsabilizado pelo episódio.
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Kerr e o pesquisador Lionel Gonçalves, com quem desenvolveu a abelha africanizada (foto: acervo L. Gonçalves/1999) | | |
A partir de então, o cientista se dedicou a estudar a genética da produção e da agressividade dessas abelhas. Com apoio dos pesquisadores da USP Lionel Gonçalves e Antônio Carlos Stort, criou a abelha africanizada, um híbrido das espécies européia (comum no Brasil) e africana.
Além de mais mansa e bastante produtiva, a africanizada se mostrou resistente à varroa -- praga que destrói colméias -- e permitiu aos apicultores produzir o mel orgânico, que dispensa a aplicação de agrotóxicos. O híbrido criado por Kerr estimulou a criação de abelhas: o Brasil, que na década de 1960 produzia 4 mil toneladas de mel por ano, hoje produz dez vezes mais.
Warwick Kerr passou a ser reconhecido por pesquisadores e respeitado pelos apicultores -- que o têm como um dos maiores incentivadores da criação de abelhas no país. Kerr sempre participa de congressos e estimula reuniões entre pesquisadores e criadores. "Os apicultores brasileiros são os mais instruídos do mundo, pois são os únicos que se reúnem com os pesquisadores", ressalta.
A maioria dos artigos de Kerr é ligada à genética de abelhas. Mesmo quando se dedicou a desenvolver vegetais geneticamente melhores, Kerr continuou a realizar estudos com esses insetos. Seu próximo projeto é estudar abelhas sem ferrão, responsáveis pela polinização da maioria das plantas nativas. O pesquisador também pretende ajudar os ribeirinhos e índios em Manaus a produzirem o mel do grupo Mellipona. "O mel dessa abelha é o mais saboroso do mundo", garante.
Caroline Vilas Bôas Ciência Hoje on-line janeiro/2002 |