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 PERFIS - WARWICK ESTEVAM KERR

A genética a serviço dos mais pobres
Warwick Kerr desenvolve vegetais mais nutritivos para combater falta de vitaminas

Quando Warwick Kerr assumiu pela primeira vez a direção do Inpa, em 1975, se encantou com as possibilidades de estudos e com a riqueza natural da Amazônia. Seu objetivo era criar linhas de pesquisa e investir na formação de cientistas. Ao mesmo tempo, ele percebia que as comunidades locais apoiavam o trabalho dos pesquisadores e se dispunham a ajudar. Isso o levou a realizar projetos que pudessem beneficiar diretamente essas pessoas.

Vista aérea do Inpa, que Kerr dirigiu em duas ocasiões

O geneticista tentou criar um grupo de estudos que não competisse com o formado pelo Embrapa na Amazônia. Organizou a Cartilha do Amazonas, que adotava a terminologia dos índios e ensinava a cultura regional, e procurou apoiar alunos de ensino fundamental e médio. A experiência despertou em Kerr o desejo de realizar pesquisa em um estado pobre. Em 1981, foi trabalhar no Maranhão.

Trabalhos daquela época indicavam que as crianças pobres desse estado tinham deficiência de vitaminas B1, B2 e A. Preocupado com essa realidade, Kerr decidiu se dedicar ao melhoramento genético de hortaliças -- vegetais mais nutritivos poderiam ajudar a combater doenças motivadas por avitaminose.

Kerr conseguiu modificar alguns vegetais e torná-los mais ricos e adaptados ao clima de São Luiz. Um exemplo de cultivar (variedade) obtido pela equipe de Kerr foi o feijão-macuco (Pachirrhysys erosus) 8% mais rico em proteínas que a cultivar obtida no México. Uma nova variedade da macaxeira-amarelinha (Manihot esculenta) também se mostrou melhor em produtividade e qualidade (alto teor de vitamina A) que a espécie branca de São Luiz.

Variedade verde-escura de alface desenvolvida pela equipe de Kerr em São Luiz, pelo menos 4 vezes mais rica em vitamina A que cultivares comuns (foto: W.Kerr)

O cientista recorda que o trabalho de seleção das hortaliças era feito nas hortas dos próprios caboclos, que aprendiam a selecionar os vegetais e podiam pôr no mercado os que não haviam sido escolhidos. Trabalhar com as comunidades locais também permitiu a Kerr e sua equipe conhecer um pouco mais a medicina e sabedoria popular. "Eles sempre têm muito a ensinar", diz.

Quando foi para a UFU, em 1989, Kerr continuou a estudar o melhoramento genético de hortaliças e desenvolveu uma variedade de alface surpreendente -- a "Uberlândia 10 mil", 20 vezes mais rica em vitamina A que a alface comum. Três folhas dessa cultivar são suficientes para suprir as necessidades diárias da vitamina no organismo.

Kerr acredita que a produção de alimentos geneticamente modificados pode ser uma das maneiras de se garantir à população uma maior qualidade nutritiva. "Sou a favor de produzirmos nossos próprios alimentos transgênicos", defende. "É um absurdo o governo proibir a produção nacional." O cientista esclarece que, produzidos sob controle, esses alimentos não causariam mal algum.

Warwick Kerr também procura cultivar em outras regiões plantas amazônicas ricas em vitaminas. Entre as espécies que o cientista levou para a região de Uberlândia estão a moringa, fonte de vitamina A, e o camu-camu, a fruta que mais concentra vitamina C.

Caroline Vilas Bôas
Ciência Hoje on-line
janeiro/2002

 

 
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