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 PERFIS -  ARISTIDES LEÃO

Aristides Leão, ornitólogo amador e bibliófilo
Neurofisiologista dedicava seu tempo livre ao estudo da fauna e flora

"Certa vez almoçavam comigo o dr. Aristides e um cientista inglês, que lhe fez uma pergunta sobre as térmitas", lembra-se Romualdo José do Carmo. "Ao esclarecer a dúvida do pesquisador, Aristides transformou nosso almoço em uma aula sobre cupins."

Aristides Leão planta uma árvore de tatajuba (Bagassa guianensis)
no Horto Botânico do Museu Paraense Emilio Goeldi, em 1973


Aristides foi o último de sete filhos e não conheceu seu pai, Manoel Pacheco Leão, que morrera antes de seu nascimento. Foi criado por sua mãe, Francisca Azevedo Leão, pintora que, segundo artigo de Mário de Andrade publicado no Estado de S. Paulo em julho de 1939, viajava pelo Brasil inteiro atrás de paisagens que misturassem a natureza e a construção humana. Seu tio, Antonio Pacheco Leão, ocupou o espaço vago deixado pelo pai e acompanhou o crescimento de Aristides, a quem ensinou muito sobre biologia, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O estudo da flora e da fauna, sobretudo dos pássaros, ocupava o tempo livre de Aristides, um ornitólogo amador que sabia muito sobre o assunto. Segundo Elisabeth Leão, sua biblioteca tem um dos maiores acervos do Rio de Janeiro sobre o tema. Até hoje ela preserva as dezenas de caderninhos com anotações sobre pássaros observados por Leão.

Ele, que dormia apenas cinco horas por noite, saía de madrugada quando em férias para observar os pássaros no amanhecer do dia. Em suas anotações, registrava o nome da ave (inclusive o científico), local, data e horário da observação. Seu incentivo foi fundamental para o livro Ornitologia brasileira, do cientista alemão e seu amigo Helmut Sick. Leão escreveu a introdução da obra.

Aristides Leão em viagem ao Pantanal em 1987


Outro hobby do neurofisiologista era a pesca. Contrariado por muitos pescadores, que negavam a existência do peixe marlim nas águas do Rio de Janeiro, Leão apostava na ocorrência dessa espécie e explicava que ela vivia em águas oceânicas, portanto um pouco distante da costa, e era de difícil captura, por isso nunca era encontrada. Até que um dia, junto com seu irmão, Manoel Pacheco Leão, pescou o tal peixe. "Ele sempre falou que não havia motivo para não existir o marlim nessas águas", afirma Elisabeth.

Ela admirava a capacidade de Leão de observar as coisas a sua volta. Nas viagens que fazia, registrava toda a natureza do lugar, das plantas aos animais. Essa, talvez, é a explicação para o seu vasto conhecimento em variadas áreas. "Ele sabia ver as coisas e me ensinou a fazer isso", conta Elisabeth.

Além do conhecimento adquirido em sua criação, Leão era muito estudioso. "Quando lia um artigo e não sabia algum conceito contido no texto, interrompia sua leitura e estudava o conceito. Com isso levava dias para acabar de ler o artigo", conta Hiss Martins Ferreira. Leão lia muito e era considerado um verdadeiro bibliófilo por amigos e parentes -- fato comprovado ao entrar na biblioteca de sua casa, que contém mais de três mil volumes (muitos deles obras raras) e foi mantida intacta por Elisabeth.

Rodrigo Polito
Ciência Hoje on-line
janeiro/2003

 
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