BUSCA  DICAS
 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   



 

 

 

Mutação à vista

À esquerda, mosca Sciaria ocellaris com olhos pretos. À direita, mosca mutante com olhos brancos (fotos cedidas pelos autores)

Decidimos fazer outro experimento: cruzar as filhas da mosca de olhos brancos com seus irmãos. Como sempre, tínhamos um palpite: nasceriam apenas moscas com olhos pretos. Afinal, pensamos, todas as moscas que participariam do experimento tinham olhos dessa cor. Na sua opinião, que cor teriam os olhos dos filhotes?

Fizemos os cruzamentos e... esperamos as moscas crescerem. Já fazia dois meses que a mosca macho de olhos brancos havia aparecido. Após tanto tempo, começávamos a perder as esperanças. Chegamos até a pensar: "Aquele macho de olhos brancos apareceu um dia e talvez nunca mais vejamos outra mosca como ele!"

Isso costuma acontecer no trabalho dos cientistas. Às vezes, ficamos alegres. Às vezes, desanimados. Mas, no final das contas, sempre procuramos seguir em frente, pensando em novos problemas, experimentos e... em novas hipóteses! E, não é raro, somos surpreendidos pelo que investigamos. Com as moscas, isso ocorreu de novo!

Ao analisar os filhotes, notamos que todas as fêmeas que nasceram tinham os olhos pretos. Metade dos machos, também. Mas a outra metade... tinha olhos brancos! Nossa hipótese estava errada. Pensa que ficamos triste? Nada disso! Nos sentimos muito alegres com esse resultado. Tínhamos novamente machos de olhos brancos. Assim, podíamos fotografá-los e estudá-los melhor.

A alegria, então, misturou-se à curiosidade! Mil e uma questões surgiram na nossa cabeça! Queríamos saber, por exemplo: Se a mosca macho tinha olhos brancos, por que todos os seus filhos tinham olhos pretos?; E por qual razão metade dos seus netos machos tinha olhos brancos?; Por que uma geração não apresentou olhos brancos?; Por que não havia aparecido nenhuma mosca fêmea com olhos brancos?

Claro que precisávamos fazer novos cruzamentos e continuar a nossa investigação sobre o aparecimento de olhos brancos em Sciara ocellaris. Como agora tínhamos vários machos de olhos brancos para cruzar, isso seria mais fácil. No entanto, com os resultados dos experimentos, já podíamos chegar a três conclusões.

A primeira delas é que as moscas com olhos brancos são capazes de ter descendentes (filhos, netos, bisnetos etc.) com olhos dessa cor. No nosso caso, foram os netos. Isso quer dizer que a característica olhos brancos pode ser herdada. Também notamos que, apesar de terem olhos pretos, os filhos da mosca de olhos brancos transmitiram a característica 'olhos brancos' aos seus filhotes. Afinal, metade dos machos nasceu com olhos brancos. É como se essa característica tivesse ficado escondida por uma geração! Por isso, concluímos que a característica olhos brancos é recessiva.

Finalmente, como não havia nenhuma mosca fêmea com olhos brancos, chegamos à conclusão de que há mais chance de haver machos com olhos brancos do que fêmeas. Ou seja, essa mutação deve ser ligada ao sexo. Portanto, nós descobrimos uma mutação recessiva e ligada ao sexo na mosca Sciara ocellaris. Mas ainda temos muitas perguntas a fazer. Será que nunca nascerão moscas fêmeas com olhos brancos? E será que essa mutação afeta de alguma forma a mosca -- seu tempo de vida, sua capacidade de se alimentar, seu comportamento?

Para responder a essas questões, precisamos fazer novos experimentos e pensar em novas hipóteses. Quais cruzamentos você acha que deveríamos fazer? Conte-nos suas idéias! Quem sabe suas sugestões nos ajudem a descobrir mais sobre essa mutação na mosca Sciara ocellaris?

Veja ainda: Das ervilhas às moscas

Ciência Hoje das Crianças 128, setembro 2002
Rogério G. Nigro e
Maria Cristina C. Campos,
Grupo de Estudo e Pesquisa em Ensino de Ciências (GEPEC),
Departamento de Biologia,
Universidade de São Paulo.
E-mail:
rognig@uol.com.br

INÍCIO O INSTITUTO CH ON-LINE REVISTA CH CH DAS CRIANÇAS APOIO À EDUCAÇÃO CONTATO