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Mutantes no laboratório Descubra que esses não são seres extraordinários que têm superpoderes!
Mais um dia de trabalho começava no laboratório. Um dia que parecia igual a tantos outros. Mas o que nenhum de nós, cientistas, poderia prever é que uma surpresa nos esperava naquela manhã: um mutante! Ele estava dentro de um dos diversos frascos de vidros que há no laboratório. Mas não notamos sua presença logo de cara. Na verdade, só o vimos ao observar com uma lupa as moscas Sciara ocellaris que criamos nesses recipientes.
Essas moscas são bem pequenas e um pouco diferentes das que normalmente encontramos em nossas casas. Para estudar algumas de suas características e como elas são passadas de pai para filho, nós as colocamos dentro de frascos de vidro. Afinal, imagine a confusão que elas provocariam ao voar livres pelo laboratório! Pois bem. O mutante estava lá, entre as moscas Sciara ocellaris. Para ser mais preciso, o mutante era... uma mosca Sciara ocellaris!
Ahá! Peguei você, não é? Aposto que, na sua imaginação, os mutantes são seres extraordinários, que têm superpoderes e podem ser super-heróis ou supervilões. E pensou que um deles estava no nosso laboratório! Nem desconfiou que uma mosquinha poderia ser um mutante! E mais: um mutante de verdade, diferente dos da ficção!
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A mosca Sciaria ocellaris é pequena e um pouco diferente das que costumamos ver em casa | | |
Saiba, então, que o nascimento de mutantes é algo raro. Para encontrar um, é preciso ter um pouco de sorte e observar com atenção muitos e muitos filhotes de uma espécie de ser vivo, por várias e várias gerações. O nosso mutante era uma mosca macho que tinha os olhos brancos e não pretos como todas as outras moscas. Quando a vimos no meio de todas as outras, não acreditamos. Tivemos de olhar várias e várias vezes para ter certeza de que a cor dos seus olhos era diferente.
Hoje, sabemos que essa mosca com olhos de cor branca é um mutante. Na época, ficamos na dúvida. Antes de dizer isso, precisávamos comprovar se os descendentes (filhos, netos, bisnetos etc.) dela também teriam olhos brancos. Afinal, mutantes são seres vivos que apresentam uma alteração no código genético. Essa alteração pode promover o aparecimento de mudanças que podem ser ou não perceptíveis. Por terem origens genéticas, elas são transmitidas aos descendentes.
Então, para termos certeza de que a mosca de olhos brancos era um mutante, decidimos fazer um experimento... Tivemos a idéia de cruzar a mosca macho de olhos brancos com algumas moscas fêmeas de olhos pretos. O objetivo era saber como seriam os filhotes dessa mosca diferente. Será que eles teriam olhos brancos ou pretos? Antes de fazer o experimento, demos o nosso palpite. Acreditávamos que iriam nascer moscas de olhos brancos. E você, o que acha?
Bom, fizemos o cruzamento e tivemos de esperar. Por quê? Porque as moscas não nascem com pernas, antenas ou olhos. Quando saem dos ovos, elas são larvas. Nessa fase, elas ficam andando pelo ágar -- um produto parecido com gelatina -- e pelas folhas moídas, colocados dentro dos frascos. Ah! Elas comem fermento biológico, aquele usado para fazer pão, que também é inserido lá dentro.
Portanto, precisávamos esperar as larvas tornarem-se moscas adultas. Nessa fase da vida, elas voam, acasalam-se e põem ovos no interior dos recipientes de vidros. Quando as filhas da mosca de olhos brancos já estavam crescidinhas, analisamos cada uma e... surpresa! Todas as moscas tinham olhos pretos! Será que nunca mais veríamos uma mosca de olhos brancos?
continua...
Ciência Hoje das Crianças 128, setembro 2002 Rogério G. Nigro e Maria Cristina C. Campos, Grupo de Estudo e Pesquisa em Ensino de Ciências (GEPEC), Departamento de Biologia, Universidade de São Paulo. E-mail: rognig@uol.com.br
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