CIÊNCIA EM DIA

Carnavais, malandros e heróis, 20 anos depois
Livro homenageia uma das mais importantes obras da antropologia do Brasil

"O Brasil não é para principiantes". A frase, cunhada por Tom Jobim, batizou uma coletânea de ensaios recém-publicada pela Editora FGV (Fundação Getúlio Vargas). Organizada por Lívia Barbosa, Laura Graziela Gomes e José Augusto Drummond, professores da Universidade Federal Fluminense (UFF), a obra compila 12 textos que prestam homenagem aos 20 anos de lançamento de Carnavais, malandros e heróis - livro de Roberto DaMatta que se tornou obra de referência para as ciências sociais brasileiras. Os autores dos artigos são antropólogos que tiveram contato com o homenageado em suas vidas acadêmicas, no Brasil ou nos Estados Unidos - onde DaMatta leciona atualmente, na Universidade de Notre Dame, estado de Indiana.

Em Carnavais ..., o mais influente de seus livros, DaMatta propôs uma análise da sociedade brasileira por um enfoque cultural, retomando uma visão iniciada por Gilberto Freyre na década de 30 e abandonada mais tarde. O antropólogo procura fazer uma leitura da cultura brasileira a partir de seus arquétipos mais marcantes e de elementos como festas populares, manifestações religiosas, desfiles ou paradas. Desde seu lançamento, em 1979, a obra tem sido amplamente lida, citada e comentada entre cientistas sociais brasileiros.

Segundo o antropólogo Otávio Velho, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), "colega e aluno" de DaMatta e autor de um dos ensaios da coletânea, Carnavais ... foi capaz de revitalizar o debate antropológico brasileiro, que se perdia no marxismo e distanciava-se do cotidiano. "Naquela época, ainda estávamos na ditadura e toda a produção antropológica era voltada para a política." Exatamente por isso, segundo Otávio, o livro de DaMatta criou grande polêmica quando de seu lançamento.

Atualmente no Brasil, DaMatta minimiza a controvérsia evocada por Otávio e pelos organizadores de O Brasil ... na introdução do livro. "Não acho que tenha havido uma polêmica, embora o livro tenha mesmo recebido opiniões negativas", declarou à CH on-line. Segundo ele, a busca de um estudo pela análise do cotidiano, enfocando principalmente o carnaval e os anti-heróis nacionais, deveu-se apenas à sua formação antropológica. Além disso, ele desejava retomar a tradição do ensaio que, em sua opinião, "estava adormecida naquela época".

DaMatta não esperava que sua obra fosse provocar tanta repercussão. "Foi uma surpresa receber essa homenagem a um livro que escrevi há 20 anos", disse, orgulhoso. Para Otávio Velho, entretanto, isso não surpreende. "O livro permanece atual, e acho que irá se manter assim por bastante tempo."

Leonardo Cosendey
Ciência Hoje/RJ
01/10/00

 

 

 
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