Em 1957, ciceroneando o geógrafo francês Jean Tricart em uma excursão pelo interior de São Paulo, Aziz Ab'Sáber e ele observaram a ocorrência de stone lines (linhas de pedra) em um barranco. Até então, essas linhas eram um enigma para os brasileiros, mas Tricart desfez o segredo: elas poderiam ser remanescentes de um chão pedregoso do passado, algo semelhante a certas formações de pedras típicas do Nordeste. A observação estimulou Ab'Sáber, que passou a se dedicar ao estudo das linhas de pedra.
Os biólogos se interessaram pela teoria dos redutos: o zoólogo Paulo Emílio Vanzolini passou a desenvolver um trabalho em cima do apresentado por Ab'Sáber, abordando o que teria ocorrido com os animais submetidos a essas circunstâncias. Vanzolini concluiu que, se houve redutos de mata, a fauna existente na época teria se refugiado nesses locais, que passaram a ser chamados de refúgios. Assim, a mesma espécie teria ficado dividida em diversos refúgios separados por barreiras ecológicas, sendo submetida a diferentes condições de sobrevivência. Cada uma delas teria sofrido especiação (mutação da espécie de acordo com sua adaptação ao ambiente). Essa poderia ser uma das causas da grande biodiversidade na América do Sul.
Quando as condições climáticas voltaram a ser as mesmas, as barreiras ecológicas (ou caatingas, como havia proposto Ab'Sáber) desapareceram e as matas originais retomaram o território perdido. As espécies, separadas por longos períodos, voltaram a conviver. No entanto, em muitos casos, a especiação havia sido tanta que a mesma espécie original já não tinha mais compatibilidade suficiente para que ocorressem cruzamentos.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ