Paula Couto é tido como continuador da obra do botânico dinamarquês Peter Lund
Quem visita a coleção do Museu Nacional não imagina todo o périplo que as peças atravessam até que possam ser expostas. É preciso ir a campo em expedições, coletar o material com cuidado, levar ao museu para limpar, preparar e identificar cada pedaço para só então divulgar a descoberta. Como todo paleontólogo, Carlos de Paula Couto participou desse processo diversas vezes.
O gaúcho realizou suas primeiras expedições assim que se tornou pesquisador do Museu Nacional. Durante muito tempo, coletou material na bacia de São José de Itaboraí (RJ). Lá, funcionava uma pedreira que sempre dinamitava a área, e a cada vez surgiam mais fósseis. Nessa bacia, Paula Couto descobriu fósseis de mamíferos da época em que esses animais surgiram na América do Sul (entre 60 e 65 milhões de anos atrás).
O paleontólogo participaria ainda de diversas outras expedições e colheria material em locais que vão do Acre e à região Sul. Na Bahia, o pesquisador encontrou fósseis de preguiça gigante. Em outra viagem, ele foi acompanhado pelo filho Tito e pelo professor Fausto Cunha a Itapipoca (CE). Tito lembra que o cientista selecionou algumas pessoas do local para ajudar no trabalho de escavação. "Meu pai pagou o sábado e o domingo, e eles se assustaram", conta. "Foi a primeira vez que aquelas pessoas ouviram falar em legislação trabalhista." Lá, Paula Couto coletou diversos fósseis de mamíferos do pleistoceno (de 2 milhões a 10 mil anos atrás).
 |
|
|
Paula Couto durante saída de campo | | |
Um local que se destaca entre as expedições de Paula Couto é Lagoa Santa (MG). O botânico dinamarquês Peter Lund realizara ali vários trabalhos de paleontologia no século 19, deixando, porém, muitas de suas pesquisas inacabadas. Paula Couto retomou parte de seu trabalho, investigando por exemplo a idade do Homem de Lagoa Santa, um dos mais antigos da América Latina, descoberto pelo dinamarquês. O gaúcho foi reconhecido como o grande continuador da obra de Lund. Em 1980, já doente, receberia a Cruz de Cavaleiro da Ordem Real de Danebrog, concedida pela Rainha da Dinamarca por seus trabalhos complementares aos de Lund em Minas Gerais.
Baseado em décadas de estudos, Paula Couto lançou em 1979 o Tratado de Paleomastozoologia, tido até hoje como uma bíblia da paleontologia de mamíferos. O livro, assim como o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) recebido em 1980, vinham coroar a carreira do pesquisador. Sofrendo de um câncer, ele ainda trabalhou enquanto pôde - os alunos de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) iam com a Kombi da faculdade buscar o mestre em casa para que desse aula. Paula Couto sucumbiu à doença e faleceu em 15 de novembro de 1982, em Porto Alegre.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ