As pesquisas de Johanna Döbereiner com bactérias fixadoras de nitrogênio dariam a ela reconhecimento internacional e impulsionariam a agricultura e a economia no Brasil. O fundamento do fenômeno estudado por ela - a fixação biológica de nitrogênio, ou FBN - é a parceria entre as bactérias e a planta. Em troca do gás carbônico captado durante a fotossíntese, os microorganismos capturam para as plantas o nitrogênio do ar que lhes proporciona um crescimento mais rápido, sem a necessidade do uso de fertilizantes nitrogenados à base de derivados de petróleo. Graças aos estudos de Johanna, as bactérias foram implantadas em sementes e desenvolveram nódulos nas raízes das plantas, viabilizando a fixação do nitrogênio.
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Acima, bactérias Azotobacter chroococum, do mesmo gênero das fixadoras de nitrogênio estudadas por Johanna | | |
As bactérias, produzidas por um processo natural, oferecem diversas vantagens sobre os fertilizantes químicos. São mais baratas, saudáveis, não gastam energia e não poluem - são ecologicamente corretas. As criaturinhas de Johanna apresentam ainda outra peculiaridade: só se desenvolvem em ambientes ensolarados, com temperaturas de entre 30 e 35o C. Elas não podem ser usadas em países de clima temperado - como os Estados Unidos, principal produtor mundial de soja. Funcionam apenas em países de clima tropical, como o Brasil. Uma homenagem da cientista ao país que a acolheu?
O princípio da FBN seria também aplicado em outras pesquisas da agrônoma. Johanna era uma grande defensora da natureza, e justificava essa posição com seus estudos. Após uma série de pesquisas, ela fez uma proposta revolucionária, que mais uma vez contrariava a opinião geral. Ela alegou que, uma vez retirada a floresta, o solo da Amazônia se tornava pobre em poucos anos; portanto, era absurdo derrubar a mata para plantar. Johanna propôs que se cultivasse o cerrado, aplicando a FBN e um rodízio de culturas que enriqueceria o solo e o prepararia para o próximo plantio. Mais uma vez, a idéia foi aplicada com êxito. "Hoje o cerrado é praticamente todo trabalhado", afirma o agrônomo Ivo Baldani, discípulo da agrônoma e cientista na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
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Johanna orienta um aluno no laboratório | | |
Nos últimos anos, Johanna se dedicou a outra pesquisa: a da substituição do óleo diesel por outro produzido a partir da mistura do óleo de dendê e da pupunha (fruto de uma palmeira amazônica). O cultivo desses vegetais poderia se valer do princípio da FBN. A pesquisa, solicitada pela Petrobras, não chegou a apresentar resultados práticos.
Pouco tempo após a morte de um de seus filhos, assassinado em São Paulo em 1996, Johanna desenvolveu o mal de Alzheimer. A agrônoma continuou trabalhando, apesar das limitações impostas pela doença. Ela viria a falecer de insuficiência respiratória em 5 de outubro de 2000.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ