Peter Lund era adepto da teoria catastrofista, segundo a qual desastres naturais teriam extinguido as sucessivas formas de vida. A teoria foi proposta pelo anatomista francês Georges Cuvier a partir do criacionismo e do atualismo geológico. O criacionismo atribuía a Deus a gênese de cada espécie e se opunha à teoria de Lamarck, para quem as espécies evoluíam lentamente em função do uso e desuso de características adquiridas. Já o princípio do atualismo geológico via nas diferenças entre fósseis de camadas geológicas distintas a prova de que teria havido sucessivas 'criações'.
 |
|
|
Crânio e mandíbula de um 'homem de Lagoa Santa' | | |
Além de defender o catastrofismo, Lund era fixicista: acreditava não haver ligação entre as espécies. Negava, portanto, a evolução proposta por Lamarck e sistematizada posteriormente por Darwin. Ele já percebia, porém, semelhanças entre espécies fósseis e atuais. Escreveu, inclusive, um estudo comparativo sobre o assunto.
Os catastrofistas aceitavam a existência de um homem 'antediluviano' como um ser distinto do homem atual (para Cuvier, a última grande extinção seria fruto do dilúvio bíblico). Mas a noção de que esse homem existiu na América não era considerada à época. Apesar das idéias circulantes, Lund convenceu-se da antigüidade das ossadas humanas descobertas por ele em 21 de abril de 1843.
Esses ossos de cerca de trinta indivíduos estavam misturados a fósseis de animais, "todos depositados aproximadamente na mesma época", conforme relata Lund. A idéia de uma humanidade tão antiga a ponto de ter coexistido com a fauna extinta ainda não era considerada plausível.
 |
|
|
As escavações de Lund apontavam para o evolucionismo e colocaram em xeque sua fé luterana e a teoria catastrofista de Cuvier | | |
Do ponto de vista antropomórfico, os fósseis descobertos por Lund eram bastante distantes dos indígenas americanos e próximos dos negróides. Suas características físicas eram homogêneas, o que indica seu isolamento genético (ele não teria se misturado a grupos diferentes). Essa identidade configurou o perfil daquele que ficou conhecido como o 'homem de Lagoa Santa'.
Entre as ossadas de Lagoa Santa, somente as mais antigas -- datadas entre 11 e oito mil anos -- possuem características negróides; os fósseis a partir de oito mil anos já apresentam características mongolóides. O desaparecimento da raça negróide que habitou a região e seu relacionamento ou não com os mongolóides que vieram a seguir e dominaram o continente permanecem não esclarecidos.
Pouco depois da descoberta do homem de Lagoa Santa, Lund abandonaria suas pesquisas. Em carta à família, atribuiu a renúncia a problemas financeiros. Cástor Cartelle propõe outra justificativa. "Lund ficou um tanto desorientado com a existência do homem pré-diluviano e sincrônico da fauna recente e extinta. Acredito que o fato de comprovar que sua perspectiva catastrofista não tinha sustentação foi uma das causas que o impeliram a abandonar a vida científica." A extrema religiosidade também é considerada por alguns autores como motivo do precoce abandono da ciência.
Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
agosto/2001