Quando Gilberto Freyre escreveu seus primeiros textos em inglês, ainda aluno da Baylor University, nos Estados Unidos, seu professor, o americano Joseph Armstrong, notou que o talento do jovem brasileiro poderia torná-lo um fenômeno como o ucraniano Józef Teodor Konrad Korzeniowski, autor de romances em língua inglesa. Armstrong propôs que seu aluno se naturalizasse americano para usufruir de uma cobiçada bolsa de estudos em Oxford: a Rhodes Scolarship. Freyre recusou o convite. Se viesse a ser escritor, seria em português.
Anos mais tarde, em 1933, com o livro Casa-grande & senzala, Freyre iniciaria sua carreira de escritor polêmico, criando um novo estilo criticado por uns e adorado por outros. O livro, o mais conhecido do pernambucano, tornou-se um dos pilares da antropologia moderna brasileira. Nele, Freyre conta a história da sociedade patriarcal no país e descreve a vida nos engenhos, o poder dos senhores e a formação da economia nacional sob esse regime.
Casa-grande & senzala foi o primeiro livro da série Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil, que seria continuada em outros dois: Sobrados e mucambos, de 1936, em que Freyre aborda a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano, e Ordem e progresso, de 1959, em que trata da desintegração dessa sociedade com o surgimento do trabalho livre. O antropólogo não chegou a escrever o último livro da série, Jazigos e covas rasas, embora tenha reunido bastante material para ele. Freyre pretendia ainda publicar outros três tomos, destinados à bibliografia geral, aos índices e à reprodução de documentos manuscritos e iconográficos.
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Sobrados e mucambos, pintura de Freyre | | |
Freyre escreveria livros sobre diversos outros temas. Em 1934, publicou o Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife. Euclides da Cunha, autor de Os sertões, foi retratado pelo antropólogo em Perfil de Euclydes e outros perfis. Em Tempo morto e outros tempos, livro editado em 1975 que teve grande destaque, o pernambucano reuniu trechos de seu diário, contando histórias de sua vida dos 15 aos 30 anos. No prefácio, o escritor lamenta que muita coisa tenha se perdido, diz não ter vergonha de seus apontamentos e menciona seus "quixotismos e pancismos".
Nem antropólogo, nem sociólogo, nem pintor: o título que mais agradava a Freyre era o de escritor. Com a renda de suas obras, criou seus filhos, sustentou-se e ganhou prêmios. Nunca pediu nada a ninguém e se orgulhava de viver de direitos autorais. Seus textos, traduzidos para as mais diversas línguas, ainda hoje são fundamentais para o estudo da sociedade brasileira.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ