Escrita padrão para todos os falantes de português foi uma bandeira de Houaiss
Como grafar corretamente: ator ou actor? Idéia ou ideia? Antônio ou António? A resposta depende essencialmente do lado do Atlântico em que o leitor aprendeu português. No Brasil, a primeira forma parecerá correta; já em Portugal, a segunda será a escolhida. A pitoresca descoberta dessas diferenças pode se tornar um problema quando elas se manifestam na redação de documentos oficiais relativos aos diversos países falantes da língua portuguesa.

Minimizar os conflitos criados por essas diferenças foi uma das principais preocupações de Antônio Houaiss. Chamado por Sérgio Rouanet de "incansável batalhador da unidade ortográfica do português, contra todos os patriotas da língua", o filólogo considerava importante que todos os países lusófonos tivessem uma mesma ortografia. No livro Sugestões para uma política da língua, Houaiss defendia, já em 1960, a existência de fundamentos comuns na diversidade do português falado no Brasil e em Portugal. "A grafia não injunge ninguém a pronunciar a palavra de uma certa forma, ela não é fonética", explicou em entrevista a Ciência Hoje em 1987.
Houaiss foi delegado do governo brasileiro no Encontro para a unificação ortográfica da língua portuguesa, realizado no Rio de Janeiro em 1986. Foi ele o responsável pelo convite aos outros seis países que então adotavam o português como idioma oficial : Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe (o Timor-Leste passou a adotá-lo recentemente). O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, elaborado no encontro e revisado em Portugal, pretende transformar o idioma em língua de cultura internacional (segundo o Dicionário Houaiss, 'língua de cultura' é a "língua dos povos que desenvolveram uma civilização marcada por grande cultura e nessa língua produziram sua literatura escrita").
"Continuamos a ser a única língua do mundo com duas formas oficiais de se grafar", diz Mauro Villar, sobrinho do filólogo e diretor do Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia. No livro A nova ortografia da língua portuguesa, Houaiss analisou a significação política e cultural do evento e demarcou as normas decorrentes do acordo. Desde 1990, no entanto, o acordo vem se arrastando, sem que se defina uma data para que todos os falantes de português escrevam da mesma maneira. "A melhor forma de homenagear a memória de Houaiss é garantir que esse acordo seja finalmente assinado pelos sete países da comunidade lusófona", defende Arnaldo Niskier, ex-presidente da ABL. "Esse era seu maior sonho."
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ