Houaiss foi uma referência para representantes africanos na ONU
Houaiss estava casado há seis meses quando foi convidado pelo Itamarati para dar aulas no Uruguai. Em uma semana, sua vida mudou: os planos de se tornar professor da Faculdade Nacional de Filosofia tiveram de ser abandonados, e o casal foi conhecer a experiência de morar no exterior. Passado pouco mais de um ano, o filólogo decidiu que essa vida era algo que desejava para si. Como estava preparando alunos para a prova de admissão no Itamarati, inscreveu-se no concurso de última hora. Foi aprovado em terceiro lugar e passou anos viajando. Morou na Suíça, na República Dominicana, na Grécia.
 |
|
|
Houaiss representou o Brasil na ONU entre 1960 e 1964 | | |
Em sua atividade diplomática, uma das épocas que mais se destaca é aquela em que foi ministro de segunda classe na Organização das Nações Unidas (ONU). Lá, colaborou com o processo de negociação do armistício e da anistia de presos políticos em Ruanda e Burundi. Tornou-se referência para os líderes dos novos estados africanos, que nos anos 60 passaram a fazer parte da ONU. Contou ao embaixador e colega Vasco Mariz que esses diplomatas preferiam consultá-lo a "ter de abordar os delegados ingleses ou franceses, que os aconselhariam com interesse e parcialidade".
 |
|
|
Houaiss, Carlos Drummond de Andrade e suas esposas | | |
Com a ditadura militar, Houaiss foi afastado do serviço público. Sua participação na resolução da Assembléia Geral intitulada Declaração de outorga de independência a países e povos coloniais, a partir da qual a diplomacia brasileira se desatrelou finalmente da antiga metrópole, e uma condenação por "delito de opinião", revogada ainda na época de Getúlio Vargas, foram decisivas para que seu nome constasse da terceira lista divulgada pela repressão. Respondeu a um inquérito administrativo, e rebateu as acusações em um livro chamado A defesa.
O estudo da língua portuguesa voltou então a ser prioridade em sua vida. Editou diversas obras de referência e traduziu Ulisses, de James Joyce. Frente à complexidade lingüística do original, Houaiss preparou uma tradução "antinormativa", transportando a insubordinação do texto em inglês para a versão brasileira. O trabalho foi bastante criticado por nomes como João Ubaldo Ribeiro.
Beneficiado pelo contato com acadêmicos que tivera na Comissão Machado de Assis, decidiu se candidatar à Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1971. "Eu pensei: se eu me fizer acadêmico, poderei continuar a ser o Macunaíma que sou, mas talvez um pouco protegido", explicou em entrevista de 1987 a Ciência Hoje. Mais tarde, Houaiss assumiria a presidência da instituição.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ