Revolução seria única saída para romper com autoritarismo das classes dominantes
"O Brasil nunca será nada se a cidadania não for universal, e para que ela seja universal é preciso que todos os de baixo pertençam a uma classe social, que sejam capazes de ter
aqueles requisitos que permitem o aparecimento do cidadão."
Florestan Fernandes
"Continuo marxista. Serei sempre um radical." Apesar de acreditar na atuação gradual e realista da esquerda moderada, Florestan Fernandes reafirmou sua posição de extrema esquerda em uma de suas últimas entrevistas. Ele acreditava que, quantitativamente, a esquerda brasileira tem condições de crescer se aumentar sua comunicabilidade com aqueles que procura representar e com aqueles que detêm o poder. Contudo, Florestan revelava preocupação em relação ao agravamento dos conflitos sociais no Brasil e no mundo, com ênfase na questão dos deserdados da terra que, em sua opinião, representam um setor realmente explosivo da sociedade.
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Florestan ao lado de Fernando Henrique Cardoso, seu antigo aluno e assistente, em 1986 (arquivo Florestan Fernandes) | | |
Segundo Florestan, o mundo vive hoje a fase do capitalismo mundializado, que instaura uma nova forma de imperialismo sobre os países de periferia e fortalece governos de direita. Esse é um movimento mundial que ganha visibilidade no Brasil, onde as elites dominantes possuem a tradição de se ajustar às demandas políticas do setor externo da economia. A visão do sociólogo era pessimista em relação à dominação externa. Ele afirmava que a história não é permanente, mas que a dominação externa é um dado permanente de nossa história.
O processo neo-liberalista, de acordo com Florestan, estaria atrasado no Brasil. Quando instaurado, porém, traria uma nova forma de dependência, baseada na exclusão extrema -- que no Brasil consiste em uma animalização que não elimina apenas os direitos políticos e sociais, mas também o direito ao pensamento.
O presidente Fernando Henrique Cardoso foi seu aluno e discípulo. Em entrevista de 1995 para a Revista de Sociologia da USP, no entanto, Florestan revela que não nutria qualquer esperança de que Fernando Henrique viesse a melhorar o país. No Brasil, a elite dominante mantém-se no poder através de uma aliança baseada em concessões recíprocas com o setor de esquerda mais moderado. Nesse esquema, o presidente torna-se um mero instrumento das forças conservadoras. Florestan afirmava que o grupo no poder, durante o governo FHC, seria "a conciliação mais ampla e, ao mesmo tempo, mais escabrosa que já ocorreu na história do Brasil".
"Florestan denuncia que não temos uma sociedade plenamente democrática devido à ausência de organização autônoma das classes populares", sintetiza Brasilio Sallum. "A democracia seria imposta de cima para baixo, e não é expressão autônoma de quem está na base da pirâmide."
Na concepção de Florestan, as classes dominantes brasileiras possuem um mecanismo de auto-defesa que torna a democracia um privilégio de iguais, restrito às elites no poder. O capitalismo retirou o caráter político do conflito social e gerou uma democracia meramente formal, restrita às instituições. Com as palavras de Florestan, a única saída seria a revolução e, para isso, "o fundamental é o desemburguesamento da classe operária".
Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
julho/2001