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 PERFIS - FLORESTAN FERNANDES

À margem da academia
Sociólogo militante denuncia o preconceito racial e o autoritarismo político

Por ter adotado diversas linhas teóricas, Florestan Fernandes muitas vezes é considerado "eclético". No livro Florestan - sociologia e consciência social no Brasil (Edusp), José de Souza Martins revela o descontentamento do sociólogo com o rótulo pejorativo já que, para ele, o socialista e o acadêmico sempre existiram em diferentes proporções em função do momento histórico. "A obra de Florestan possui uma consistência interna impressionante, excluindo-se os temas de início de carreira, que formam uma etapa etnológica fechada", considera Gabriel Cohn.

Florestan começa a escrever no fim dos anos 1940 sob viés funcionalista. Na década seguinte, concentra-se no tema do negro, que acompanha sua trajetória dali em diante. Num artigo de 1977 publicado em O Globo, o sociólogo afirma que no Brasil "não existe sequer democracia para brancos poderosos, imagine-se para negros e mulatos". Em pesquisa realizada em parceria com o etnólogo francês Roger Bastide na década de 50, Florestan contesta o mito da democracia racial e põe em xeque a democracia representativa, tema recorrente em sua obra. Em A integração do negro na sociedade de classes, o brasileiro pede textualmente uma "segunda abolição".

Segundo Gabriel Cohn, Florestan sempre esteve à margem da sociologia por observar a sociedade sob o ângulo da dinâmica social e não pelo aspecto das instituições políticas -- perspectiva dominante até hoje. "A burguesia no Brasil tem o poder de fato, mas não o converte em formas democráticas de organização política. Daí a desconfiança de Florestan quanto às análises institucionais, que encobririam o restrito acesso ao poder e à igualdade democrática."

Nos anos 1970, Florestan soma ao rigor da sociologia acadêmica a perspectiva política e inaugura a atuação do sociólogo-socialista, o que implica uma mudança em sua visão de ciência. O sociólogo que em 1969 afirmara ter sempre mantido "o alvo ambicioso de ser um sociólogo tão objetivo e rigoroso quanto [lhe] fosse acessível" dá lugar ao cientista engajado. Em 1981, Florestan escreve que "nós [os sociólogos-socialistas] somos compelidos a misturar ciência com ideologia e com política, pois não tememos tornar explícito o que é uma realidade". O sociólogo militante criticava tanto as relações sociais de desigualdade quanto o modo como eram interpretadas pelos cientistas sociais.

Florestan considerava a ordem patrimonialista um empecilho à revolução burguesa efetiva, cujo caráter autoritário impede a instauração da democracia e perpetua a dominação pela mesma elite. A colonização teria estabelecido relações de poder que se cristalizaram na conformação dos dominados. O Estado capitalista periférico é autocrático, ou seja, o exercício da autoridade do governante é ilimitado.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
julho/2001

 

 
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