A amizade de Florestan Fernandes com Antonio Cândido, destacado crítico literário, durou mais de 50 anos. Ambos escreviam para a Folha de S. Paulo e costumavam ler o artigo um do outro, mas não se conheciam. Estabeleceram contato por meio de cartas, por iniciativa de Florestan. Assim, descobriram que estudavam na mesma faculdade e marcaram um encontro. Para Antonio Cândido, "foi amor à primeira vista". Eles logo ficaram amigos e costumavam se cumprimentar com abraços e beijos. Certa vez, nos anos 60, um jornalista perguntou se eles eram parentes. Cândido respondeu com humor que só faz essa pergunta quem não tem um amigo para beijar.
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Florestan e o amigo Antonio Cândido (imagens desta página: arquivo F. Fernandes) | | |
No livro Florestan Fernandes, Antonio Cândido conta que o amigo participava de um grupo marxista trotskista na década de 40. Nessa época, Florestan dedicou-se ao estudo da obra de Marx, cuja influência caracteriza a sociologia do paulistano como histórica -- de reconstrução do presente, da realidade de sua sociedade.
No capítulo "Florestan Fernandes Marxista", Cândido aborda o processo em que Florestan deixa a linha funcionalista de análise para adotar viés marxista. Segundo o autor, a virada representa um amadurecimento teórico que permite a Florestan "fundir harmoniosamente o rigor da sociologia acadêmica com a perspectiva política". Florestan inaugura no Brasil a análise marxista, que consiste em observar a sociedade segundo sua divisão em classes sociais. Segundo Brasilio Sallum, Florestan teve o mérito de não temer acusações de vulgarizar a teoria marxista.
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Florestan embarca para o exílio no Canadá em 27/04/1969 | | |
Defensor da educação pública, Florestan sempre esteve ligado a movimentos sociais e organizações políticas de esquerda, o que redundou em sua prisão política por ocasião do golpe de estado de 1964. Mesmo após retornar de seu exílio no Canadá, em 1972, o sociólogo não foi chamado para lecionar na USP, fato de que guardou mágoa.
Florestan esteve ligado ao Partido dos Trabalhadores desde sua fundação, mas somente se filiou em 1986. Exerceu dois mandatos consecutivos como deputado federal, entre 1987 e 1995, nos quais se destacou na defesa da escola pública e do projeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação.
"Os parlamentares viam a presença de meu pai com desconfiança", afirma Florestan Jr. Como o sociólogo era deputado pelo PT, que não possuía maioria na Câmara, costumava entregar projetos prontos para que deputados de outros partidos apresentassem ao Parlamento com maior chance de aprovação. Florestan Jr. conta que seu pai considerou seus primeiros meses de atuação política mais difíceis do que imaginava. Mas a experiência como deputado mostrou-se muito proveitosa, pois Florestan sentia-se de fato aprendendo sobre o país que não via quando estava na universidade.
Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
julho/2001