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 PERFIS - ROBERTO DAMATTA

Voltar para o Brasil?
Na seqüência da entrevista à CH on-line, DaMatta discute o futuro de sua carreira

DaMatta, a esposa Celeste, a nora e seis de seus oito netos

Como foi voltar para o Brasil em 1970 durante a ditadura militar?

O mundo acadêmico é muito difícil: lida-se com idéias, não se ganha muito, dar aula em universidade brasileira não é fácil, há muita interferência política (sobretudo naquela época, por causa da ditadura militar). Quem não estava nem de um lado nem de outro, como era meu caso, pagou um preço relativamente alto. Felizmente, consegui tirar de dentro as idéias, escrever, botar no papel -- Deus sabe como! Trabalhava à noite, sábado, domingo... Eu sou um camarada que não está perdendo nada sentado diante do computador. Depois do computador, tenho tudo fichado: tenho uma pasta só de citações, então, para escrever, sai de baixo! Tenho esse tipo de competência: eu sou um medíocre esforçado -- é isso que caracteriza o sujeito competente.

Mudamos muito de 1979 para cá?

Sim e não, como na fábula que vou citar em um livro: um navio fez uma viagem muito longa, ao longo da qual foram substituídas todas as suas peças -- velas, cabos, madeiras, âncora. Quando chega, o navio é o mesmo ou é diferente? Se olharmos por um certo ângulo, é um outro navio. Mas o estilo e a forma são os mesmos. Então o Brasil é isso. É muito complicado: acho que a melhor maneira de se atacarem os problemas sociais no sentido denso, como estilo de viver e pensar (que é o sentido antropológico), é ter consciência deles. É como uma pessoa que tem uma compulsão, neurose, pesadelo. Conviver com aquilo significa, de certo modo, ter um certo controle, não um controle absoluto, mas algum comando, um certo distanciamento.

Como você vê o seu trabalho hoje? Que críticas você faria, o que reescreveria, o que está perfeito? Arrepende-se de alguma coisa?

Recentemente, fiz um prólogo para a edição espanhola de Carnavais, malandros e heróis. Foi muito difícil relê-lo, pois não gosto de fazer isso. Não tenho nada a tirar ou acrescentar: acho um grande livro. Gosto do sujeito que escreveu porque não sou eu, é uma outra entidade, um outro pedaço meu. Assim acontece também com a introdução de A casa & a rua. Acho muito bem feita, inclusive do ponto de vista estilístico. Digo o mesmo da introdução de Águias, burros e borboletas: um ensaio antropológico sobre o jogo do bicho, livro que fiz com a cientista social Elena Soares.

Há algum aspecto da sociedade brasileira hoje ao qual você gostaria de se dedicar?

A pobreza. Como é possível viver aparentemente com tão pouco dinheiro? Estou fazendo uma investigação sobre isso -- como as pessoas calculam esse dinheiro, como elas separam... É um tema que me interessa muito. Esta é uma sociedade muito desigual e, se você pensar essa desigualdade em termos disjuntivos, não dá para explicar. A única possibilidade é que haja uma capilaridade muito grande entre um pólo e outro.

Você pretende voltar ao Brasil?

Faz tempo que não ensino no Brasil, mas voltarei, se Deus quiser. Não quero morrer nos EUA. Nasci aqui e quero morrer aqui. Encarnei no Brasil e quero desencarnar no Brasil. Com toda certeza em dois ou três anos estarei de volta.

Para o Museu Nacional?

Acho que não. Já paguei minhas contas com as federais gratuitas e de ensino de qualidade. Pretendo fazer alguma coisa em outro lugar ou trabalhar em casa de forma independente. Posso dar um curso no Museu, se o mesmo me chamar, quiser e for interessante para ambos.

Paula Americano
especial para a CH on-line
julho/2002

 

 
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