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 PERFIS - ROBERTO DAMATTA

De outros carnavais
DaMatta fala à CH on-line sobre a opção pela antropologia e a recepção de sua obra

DaMatta e Celeste são casados há 40 anos

O senhor é formado em História. Por que resolveu seguir a antropologia?

Minha motivação maior foram meus próprios problemas: queria entender melhor minha vida, meus pais, as andanças. Fui criado com um sentimento de estranhamento muito grande que minha mãe me passou, fundamental para o antropólogo. Ela nunca estava satisfeita em lugar nenhum... Minha mãe era uma pianista frustrada, tinha necessidade de aparecer. De certo modo, realizei o destino que talvez ela tivesse projetado, de viajar, tornar-me uma pessoa conhecida. Descobri a antropologia já na faculdade e me fascinei. O mundo era visto de outras perspectivas: Como os amazonenses vêem o mundo? Como os baianos vêem o mundo?

Seus primeiros anos como antropólogo foram dedicados à etnologia brasileira. Por quê?

Entrei no Museu Nacional e lá conheci Roberto Cardoso de Oliveira, que foi meu mestre e, mais que isso, mentor e modelo. Lembro-me da primeira vez em que fui a sua casa e descobri mais que um professor. 'Esse é o sujeito que quero ser e essa é a vida que quero ter', pensei. O Roberto foi extremamente importante na minha vida emocional, psicológica e intelectual. Ele criou em mim determinados hábitos de ética acadêmica. Não deixo de citar colega nenhum, mesmo que haja mágoa ou ressentimento. Outro ponto importante que ele me ensinou foi preocupação com as citações, as edições dos livros, se é uma tradução ou um original -- essas coisas que só são aprendidas com um mestre, numa relação pessoal e relativamente íntima, que é o que ocorre em uma pós-graduação (por isso não se pode fazer pós-graduação por correspondência, só no contato face a face). Enfim, como o Roberto fazia etnologia, foi o caminho natural a se seguir.

Por que estudar o carnaval?

O interesse não foi propriamente o carnaval. O assunto era o que essa festa dizia sobre o Brasil. Interessei-me pelo que paradas militares, festas cívicas, procissões e festas de santos dizem sobre o Brasil. Fui fazendo essas perguntas e escrevendo uma obra baseada nisso. Uma obra que tem uma motivação muito forte e momentos superficiais, pois não sou historiador. Deixo de apreciar determinados pontos, mas acho que essa obra tem muito valor. Apesar de todas as críticas.

Como Carnavais, malandros e heróis... foi recebido pelo meio acadêmico?

O livro foi recebido com uma crítica extremamente dura no Anuário Antropológico feita por meus alunos de pós-graduação e meus colegas. E nunca foi criticado, apreciado ou resenhado em outros lugares até onde sei. Mas foi muito bem recebido pelo público, vendeu bem, tornou-se quase um best-seller. E teve um impacto muito grande. Saiu uma edição em francês muito bem recebida por intelectuais de peso na França. Uma resenha no Le Figaro Littéraire, feita por um importante historiador da América Latina, começava assim: "agora temos que colocar junto de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Roger Bastide o nome de Roberto DaMatta". E tudo isso de graça, porque não conheço essas pessoas, não sou da elite, não fui do partido comunista francês nem do partido socialista búlgaro, não tenho carteirinha de clube de não sei o quê, não estudei no Colégio de Aplicação ou no Santo Inácio. Sou de Niterói e continuo morando em Niterói. Foi muito gratificante.

Paula Americano
especial para a CH on-line
julho/2002

 

 
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