Em 1959, quando ingressou no Museu Nacional, Roberto DaMatta conheceu Roberto Cardoso de Oliveira, também antropólogo e autor de clássicos da etnologia brasileira. Foi com Roberto Cardoso e uma equipe de alunos montada por ele que DaMatta foi a campo pela primeira vez, entrevistar índios no interior do Mato Grosso. "Foi horrível para mim. Realizei as entrevistas, fiz o melhor que pude e paguei o meu pedágio", conta.
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DaMatta durante trabalho de campo | | |
Após essa experiência, iniciou uma pesquisa com os índios Gaviões que resultou no livro Índios e castanheiros. Em 1963, DaMatta foi para Harvard e selou uma relação institucional entre a Universidade e o Museu Nacional que durou até 1970. Nesse ínterim, fez mestrado e doutorado, para o qual estudou os índios Apinajé, e publicou o livro Um mundo dividido: a estrutura social dos índios Apinajé (1976).
DaMatta conta que ficou bem impressionado com o igualitarismo americano. "Foi muito parecido com a experiência de Tocqueville, que aliás nasceu em 29 de julho também. Quando eu o lia, sentia que traduzia (melhor, porque é genial e eu não) as coisas que estava sentindo. É como se eu estivesse lendo um irmão espiritual."
Quando voltou para o Brasil em 1970, trouxe esse igualitarismo que, combinado com o que ele qualifica de suas "peculiaridades emocionais", traduzia às vezes uma agressividade muito grande. Essa postura pouco cordata, porém essencial nas relações acadêmicas, custou-lhe muitas críticas.
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O pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) e o movimento tropicalista (acima, capa do disco Tropicália ou Panis et circensis, de 1968) foram duas influências marcantes na antropologia de Roberto DaMatta | | |
Após escutar os tropicalistas, no final dos anos 1960, DaMatta decidiu escrever sobre música popular brasileira. "Estou com o CD Tropicália no carro. Até hoje considero o movimento tropicalista tão surrealista, intrigante e cheio de sugestões subliminares sobre aquele momento brasileiro [a ditadura]. Muitas coisas eram enunciadas de forma 'não-dita'." Após ouvir "Noite dos Mascarados" [de Chico Buarque], com Gilberto Gil e Nara Leão, DaMatta começou uma tentativa de interpretação do Brasil que dura até hoje. Era o fim do namoro com a etnologia.
Em 1977, DaMatta publicou um artigo sobre os rituais de licença chamado Carnavais, paradas e procissões: reflexões sobre o mundo do rito, que mais tarde se tornaria o primeiro capítulo de Carnavais, malandros e heróis. No ensaio, o antropólogo pensou em analisar as passeatas e marchas políticas mas desistiu, pois ficaria muito extenso. No mesmo ano, publicou o artigo "Carnival in multiple planes", sobre ritos cósmicos e históricos. O ensaio, apresentado em simpósio na Áustria, comparava o Carnaval com a festa da Independência.
Assim foi nascendo Carnavais..., publicado em 1979 e até hoje a mais conhecida obra do antropólogo. "O carnaval não se encaixa em nenhuma teoria do ritual e sobre esse problema ninguém falou até hoje, acho que fui um dos poucos a colocar isso com nitidez."
A pergunta que DaMatta se coloca desde então é: para que existe carnaval? Segundo ele, todo ritual tem um ponto central. As pessoas sabem o que são e para que servem um enterro, o Natal e a Independência, por exemplo. Já o carnaval é um híbrido. É religioso e profano, mas não tem uma eficácia: "O carnaval ajuda na colheita? Melhora a saúde das pessoas? Não faz nada disso! É preciso escrever uma teoria da orgia para entendê-lo, pois o que existe sobre isso é muito pouco e muito ruim", fala com empolgação.
Paula Americano
especial para a CH on-line
julho/2002