Antes de se tornar antropólogo, DaMatta cogitou ser arquiteto, cantor e historiador
Roberto Augusto da Matta nasceu em 29 de julho de 1936, em Niterói (RJ). Filho de um baiano e uma amazonense, passou a maior parte da infância em Manaus. Seu pai era fiscal do consumo e, por conta dessa extinta profissão, ele e os cinco irmãos eram obrigados a viajar pelo Brasil. Moraram em Maceió, Belo Horizonte, Juiz de Fora, São João Nepomuceno (MG), Niterói e Rio de Janeiro.
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DaMatta em dois momentos: aos 14 anos e durante o serviço militar | | |
Foi graças à influência da música em sua vida que DaMatta tornou-se antropólogo. "Mamãe era uma excelente pianista", recorda. Nos fins de tarde, a família DaMatta admirava sua matriarca tocar desde música popular brasileira a sucessos internacionais. "Mamãe adorava Lamartine Babo e Braguinha e sempre chamava atenção para as letras. Talvez a música estivesse sempre subjacente, pois quando comecei a me interessar por estudar o Brasil, essa foi minha principal motivação."
Quando criança, DaMatta era fantasiado de pierrô pelos pais. Já durante a juventude, o antropólogo gostava de freqüentar os bailes do Iate Clube do Rio de Janeiro com os amigos para admirar as celebridades, as mulheres que se atiravam na piscina e as maravilhosas coristas. "É um grande erro achar que o carnaval é uma coisa de divisão de classes", contesta. "É justamente isso que o carnaval tenta dirimir. Somente durante essa época eu poderia freqüentar o Iate Clube e, eventualmente, me aproximar dos sócios milionários."
Seu primeiro impulso ao entrar para a faculdade de História da Universidade Federal Fluminense, aos 19 anos, foi tornar-se escritor. Quando estava servindo no Exército, tinha o hábito de fumar um cachimbo à tarde e escrever contos em uma máquina Olivetti que pertencia ao seu pai. Depois, levava-os para o jornalista Armando Gonzaga, amigo da família e filho do teatrólogo de mesmo nome, para corrigi-los. "Armando trabalhava na embaixada americana, situada no Rio de Janeiro na época. Eu ia vê-lo com uma gravatinha e um terninho e ele me dava todos os livros que a embaixada ajudava a traduzir. Aos poucos, fui fazendo minha biblioteca."
DaMatta também gostava de pintar e desenhar e cogitou cursar arquitetura. Além desses talentos, era ótimo cantor. "Não tinha coragem de seguir essa carreira. Seria permitir que muita coisa acontecesse comigo e eu tinha medo", revela. "Eu não tinha essa disponibilidade emocional." Mas o antropólogo se dispunha a observar e inventar o mundo com uma máquina de escrever ou papel e lápis. "É o que eu gosto de fazer até hoje. Ficar sentado, distante e ao mesmo tempo dentro e fora."
Ao ingressar na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, conheceu as duas grandes paixões de sua vida: a antropologia e sua mulher, Celeste, com quem está casado há quarenta anos. O casal teve dois filhos nos anos 1960: Rodrigo e Maria Celeste. Apesar de ter cursado história, DaMatta optou pela temática antropológica por ser, em sua opinião, mais parecida com a literária.
Paula Americano
especial para a CH on-line
julho/2002