Em 1962, Otto Gottlieb foi surpreendido por um convite diferente: ajudar a implementar uma universidade que mais parecia um sonho. À frente do projeto, estavam dois dos maiores educadores que o Brasil já teve: Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. Os professores convidados precisariam primeiro fazer pesquisa e assistir cursos de pós-graduação para, após passar por essa reciclagem, darem aula. Era o nascimento da Universidade de Brasília (UnB).
"Foi o tempo mais alegre, satisfatório e maravilhoso que já conheci", relembra. Toda a poeira da cidade, que deixava os olhos vermelhos de irritação, era amplamente compensada pela possibilidade de conviver com grandes nomes de diversas áreas do conhecimento. Havia verba para pesquisa, equipamentos adequados e preocupação com a formação de cada aluno.
O sonho começou a ser destruído em 1964, com o golpe militar. O químico estava fora do país, visitando as universidades de Sheffield (Inglaterra) e Indiana (Estados Unidos). Quando ele voltou, muitos professores da UnB já haviam sido cassados, e os remanescentes estavam sob vigilância constante. No entanto, a universidade continuava a ser diferente das outras e a oferecer melhores condições de trabalho.
"Os alunos de graduação em química eram divididos em pequenos grupos e orientados por meus estudantes de pós", conta Gottlieb. Porém, oito docentes foram demitidos no final de 1965 por intervenção do governo. Os professores prepararam uma carta solicitando apoio da comunidade científica internacional, que veio sob a forma de um abaixo-assinado entregue ao presidente Castelo Branco pelo embaixador norte-americano.
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Vista aérea do campus da UnB | | |
O presidente ficou bastante irritado com a intervenção, e chamou um grupo de professores, entre os quais Gottlieb, para conversar. O químico, não muito envolvido com atividades políticas, considerou "incompreensível" sua convocação. No início, a conversa correu bem. Castelo Branco passara uma temporada na cidade natal do professor, na Tchecoslováquia, e falaram sobre o local. No entanto, quando o assunto passou a ser a UnB, as idéias do cientista irritaram o presidente. "Acredito em uma ciência independente do nacionalismo."
Os professores planejaram então uma greve de protesto. Gottlieb discordou. "Dou aula porque gosto, me recuso a entrar em greve. Se estou em um local que não oferece condições de trabalho, eu me demito." Logo começou um movimento de demissão em massa. Segundo o químico, ganhava-se 20% a mais na UnB do que em qualquer outra universidade do país. Ainda assim, no dia seguinte, quase todos os professores do Instituto de Ciências Exatas assinaram uma lista pedindo o desligamento. "Foi a coisa mais linda que já houve", diz Gottlieb. "Professor é movido por idealismo."
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ
março/2001