Certa vez, Otto Gottlieb e a farmacêutica Maria Renata Borin, ao preparar um painel para um congresso, decidiram reproduzir uma frase de divulgação de um livro que eles haviam encomendado - "Menos de 1% da composição química das plantas da Amazônia é conhecida". A expressão chamou atenção dos participantes do congresso, e os dois ficaram ansiosos para ler o livro. Quando a encomenda chegou, no entanto, veio a surpresa: o autor do livro creditava a frase ao próprio Gottlieb, que a tinha dito em um artigo.
A riqueza química da floresta Amazônica é um dos principais temas de trabalho do cientista. Muitas espécies existentes na região já foram analisadas por ele. Seu grupo isolou e descreveu novas categorias de produtos naturais. Gottlieb frisa que o conhecimento botânico de uma espécie difere de seu conhecimento químico. "O metabolismo que regula cada planta é muito diferente, precisamos entender o que o afeta."
Segundo Gottlieb, a área de maior variedade química de uma floresta são suas bordas - justamente o que se destrói primeiro. Ele explica que as condições de estresse e a influência de outros ecossistemas favorecem essa diversificação, e alerta para o perigo da exploração econômica dessa área-limite. "É um absurdo que se coloque uma população ecologicamente analfabeta nessa região." O químico critica a ocupação controlada da Amazônia - o chamado desenvolvimento sustentável. Para ele, não é possível determinar os rumos desse processo. "Se não conhecemos as regras de linguagem da floresta, não há como prever o impacto das intervenções no futuro."
O cientista reconhece a dificuldade de se classificar quimicamente todas as espécies antes que sejam destruídas. "É impossível trabalhar em um ambiente tão vasto em tempo útil", diz. Como alternativa, ele desenvolveu métodos que permitem avaliar a potencialidade química e farmacológica da riqueza natural de uma região. Com base nessa metodologia, é possível determinar algumas prioridades para a preservação de áreas específicas.
O trabalho e o conhecimento do químico, no entanto, não impedem que ele encontre resistência ao comunicar algumas de suas descobertas, como acontece com qualquer cientista em início de carreira. Foi assim quando ele propôs a idéia da diversidade das bordas da floresta, e também em um congresso em Belém, quando ele e Renata apresentaram uma tese de que a Amazônia não seria a área com maior diversidade química do país. "Não estávamos dizendo que ela não é importante nem que deva ser destruída, apenas que há áreas com maior variedade", justifica Gottlieb. "Ninguém voltou para o debate na parte da tarde", lembra a farmacêutica.
Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ
março/2001