A experiência na produção de matemática de alto nível confere a Jacob Palis autoridade para debater o papel da ciência e tecnologia, em especial no Terceiro Mundo. Em textos apresentados no Brasil e exterior, Palis defende que os cientistas têm a responsabilidade social de estimular a formação de recursos humanos na área e que, junto ao governo e à indústria, devem promover programas interdisciplinares, fomentar a interação com o setor produtivo, a melhoria do ensino em todos os níveis, a difusão da ciência e a busca por novos talentos.
O treinamento deficitário dos professores é especialmente grave em matemática, segundo Palis, porque ela é fundamental ao desenvolvimento do raciocínio lógico. "A matemática é uma criação especial do caráter humano, é abstrata, tenta formular questões da maneira mais geral possível, e por isso é uma arte um pouco mais difícil para ensinar", considera. "O drama vem dos professores, que não entendem e não têm paixão por aquilo que ensinam. Assim, é natural que 90% das pessoas não gostem de matemática." Há vários anos o Impa promove cursos de reciclagem de professores do ensino secundário, que não são centrados na pedagogia mas pretendem preencher essas lacunas de conhecimento.
O ranking de pesquisa da União Internacional de Matemática situa o Brasil no terceiro nível de atividade de pesquisa nessa área -- mesmo patamar de Bélgica, Austrália, Índia e China. Palis enxerga importantes disparidades na ciência do Terceiro Mundo. "Vejo atualmente o Brasil, a Índia e a China como países que estão preocupados com a cooperação recíproca. Em outros países, como Gana ou Botswana, os problemas são mais fundamentais."
Palis é membro da Academia de Ciências do Chile e México, mas acredita que esses países não se empenham para adotar a atitude de solidariedade científica, que tem se tornado uma política de governos em todo o mundo. "Tenho observado que a cooperação é muito positiva para o Brasil", conta Palis. "Criam-se laços muito fortes a cada vez que um peruano ou um mexicano, por exemplo, vem fazer doutorado aqui."
A Academia de Ciências do Terceiro Mundo tem se revelado um importante instrumento para a cooperação científica, na opinião de Palis, sobretudo na promoção de relações entre América Latina, Ásia e África. O matemático ressalta também a importância de se manter relações com países mais desenvolvidos. Se no Brasil as áreas de ciência e tecnologia recebem 0,8 % do Produto Interno Bruto, recebem 0,4 % no México e cerca de 3% em países como Japão e Estados Unidos.
Raquel Aguiar
Ciência Hoje/RJ
outubro/2001