SOMENTE NO ACERVO
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Há algumas histórias curiosas a respeito do padre, contadas no livro O outro lado das telecomunicações, de Hamilton Almeida. Uma delas diz que, ao redor da Igreja do Rosário, havia um meretrício. Algumas tardes, sempre às quintas-feiras, Landell reunia as prostitutas para catequizá-las. Hamilton, ao fazer suas pesquisas, encontrou Benedicto Olegário Berti, ex-coroinha de Landell em Mogi das Cruzes. Berti contou que, nas missas, o padre sempre "levava uma caixinha para o altar e a colocava próxima ao cálice. A um sinal vindo de dentro dela, ele parava a missa e começava a falar em italiano com aquele objeto estranho, que respondia bem baixo. Quando terminava, perguntava onde havia parado e recomeçava. Se ninguém sabia responder, ele iniciava a missa de novo. Por isso, quase ninguém na cidade gostava de assistir suas missas." (trecho retirado, na íntegra, do livro). Porém, não se sabe o que era essa caixinha e tampouco com quem Landell falava.

 
 PERFIS

Fé inabalável
Apesar de criticado pelo povo, padre Landell não desistiu de seu ofício religioso

"Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da ciência e do progresso humano. A verdadeira fé católica não os nega." Era assim que Landell de Moura respondia a quem lhe acusava de ser louco e ter parte com o diabo, devido ao fato de ser padre e, ao mesmo tempo, pesquisar e inventar aparelhos à frente de seu tempo. Por vezes, diziam a ele que era melhor largar a batina.

Landell era o quarto dos 14 filhos de Inácio José Ferreira de Moura e Sara Mariana Landell de Moura. Alfabetizado pelo próprio pai, ingressou aos 11 anos no Seminário Nossa Senhora da Conceição, em São Leopoldo (RS), onde concluiu o curso de Humanidades. Junto com seu irmão, Guilherme, mudou-se para o Rio de Janeiro e cursou a Escola Politécnica. Com ele, transferiu-se para Roma (Itália) e cursou o Colégio Pio-Americano e a Universidade Gregoriana, na qual estudou física e química.

Ainda em Roma, tornou-se padre em 1886 e rezou sua primeira missa. Quando retornou ao Rio de Janeiro, foi chamado para substituir o capelão da Corte Brasileira, e tornou-se amigo pessoal de Dom Pedro II, que demonstrava grande interesse por seus inventos. De regresso a Porto Alegre, o padre foi nomeado capelão da Igreja do Bonfim, professor de História Geral no Seminário Episcopal e vigário em Uruguaiana. Grande devoto de Nossa Senhora Aparecida, seria ainda vigário em Santos, Campinas e Santana (SP).

Charge ironiza a capacidade de se comunicar com outros mundos que Landell de Moura atribuía a seus inventos

As atividades científicas do padre nunca foram bem vistas pelos fiéis. Durante sua estadia em Campinas, observou alguns fenômenos e redigiu três princípios. O terceiro dizia o seguinte: "Dai-me um movimento vibratório tão extenso quanto a distância que nos separa desses outros mundos que rolam sobre a nossa cabeça, ou sob os nossos pés, e eu farei chegar a minha voz até lá." A frase foi incompreendida pelo povo, que o definiu como louco e invadiu seu escritório e quebrou todos os seus aparelhos. "Quando vi e ouvi um rádio pela primeira vez, fiquei intrigado, espantado. Imagine em 1893...o impacto não poderia ser menor", avalia Luiz Netto, estudioso de Landell.

Mas um episódio irritou e desiludiu de vez o inventor: foi quando ele pediu ao presidente Rodrigues Alves navios de guerra para demonstração de seus inventos. Ao ser perguntado sobre a distância entre os navios, respondeu "a máxima possível". No dia seguinte, recebeu uma amável carta da Secretaria da Presidência da República, que informava não ser possível no momento a realização da experiência. Landell destruiu seus aparelhos e guardou as patentes e documentos. Resolveu voltar-se exclusivamente ao sacerdócio: foi vigário em Botucatu e Mogi das Cruzes (SP), e em Menino Deus e Rosário (RS). No dia 17 de setembro de 1927, foi elevado, pelo Vaticano, a Monsenhor e, mais tarde, a Arcediago do Cabido Metropolitano. Abatido pela tuberculose, faleceu a 30 de julho de 1928, no Hospital da Beneficiência Portuguesa, em Porto Alegre.


Juliana Martins

Ciência Hoje on-line
outubro/2002

 

 
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