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 PERFIS - CARLOS CHAGAS

Uma descoberta ímpar
Em 1910, Chagas detectou em humanos o primeiro caso da doença que leva seu nome

Chagas e Belisário Penna com a equipe que trabalhava no prolongamento
da estrada de ferro Central do Brasil, na região de Pirapora (MG)

Em 1907, Oswaldo Cruz incumbiu Carlos Chagas e o médico Belisário Penna de organizar o controle à malária no norte de Minas Gerais. Uma das grandes preocupações do sanitarismo na época era permitir o desenvolvimento comercial e a integração do país, e a doença estava prejudicando a expansão da estrada de ferro Central do Brasil. Na cidade de Lassance, Chagas montou um ambulatório no alpendre de uma casa, além de um alojamento e um laboratório em um vagão de trem. Ele e Penna já estavam na cidade há mais de um ano quando o chefe dos engenheiros, Cantarino Mota, mostrou-lhes um inseto hematófago conhecido como barbeiro, por ter o hábito de morder o rosto.

Chagas decidiu investigar a possibilidade de esse inseto transmitir algum parasita ao homem ou outro vertebrado, e encontrou formas parasitárias no intestino do barbeiro. Desconfiado de que se tratasse de um estágio evolutivo do Trypanosoma minasense, protozoário recém-descoberto por ele no sangue de um macaco sagüi, ele enviou barbeiros contaminados a Oswaldo Cruz, para que ele os alimentasse no sangue de sagüis criados no laboratório de Manguinhos. Um mês depois, Cruz constatou a presença de tripanossomos no sangue dos macacos doentes. Chagas voltou ao Rio de Janeiro e logo constatou que não se tratava do T. minasense ou de qualquer outra espécie conhecida do mesmo gênero. "Em homenagem ao mestre", ele batizou o parasita de Trypanosoma cruzi.
 

Casas de pau-a-pique em Lassance (MG), onde foi identificada a doença de Chagas

 
O médico retornou a Lassance em busca de casos de humanos infectados pelo parasita. Visitou em vão casas infestadas pelo inseto, até que encontrou um gato que sofria do mal. Ele não desistiu da busca em humanos e, após algum tempo, voltou à casa onde encontrou o gato. Nessa visita, encontrou Berenice, uma criança da casa, em estado febril. No sangue da menina, que estava na fase aguda da doença (primeiras 4 a 8 semanas), ele descobriu o parasita. Chagas desvelou assim a última etapa do mal, tornando-se o único pesquisador até hoje a descrever todo o ciclo de uma doença. Chagas seria ainda o primeiro a descortinar a importância da moléstia, afirmando que onde houvesse o barbeiro contaminado, haveria pessoas infectadas.

A descoberta repercutiu tanto no Brasil como no exterior, e a Academia de Medicina fez de Chagas membro extraordinário, por não haver vaga disponível naquele momento. No entanto, como geralmente ocorre com novos achados, Chagas teve sua descoberta contestada, primeiro na Argentina e em seguida no Brasil, envolvendo a Academia em um debate em que se percebia mais vaidade que fundamentos conceituais. Embora erros pequenos tenham sido apontados, muitas vezes por ele mesmo, as pesquisas comprovariam suas descobertas e, a partir dos anos 1940, muitas das dúvidas sobre a doença seriam esclarecidas.

Renata Ramalho
Ciência Hoje/RJ

 

 
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