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Especiais / Genética e arqueologia de mãos dadas

A formação do povo brasileiro

Estudo confirma dados históricos sobre processo de miscigenação

Por: Thaís Fernandes

Publicado em 09/01/2001 | Atualizado em 29/09/2009

Não se conhecem os detalhes da miscigenação entre ameríndios, europeus e africanos que deu origem à população brasileira. Para investigar o processo, a equipe do geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), analisou o DNA de brasileiros brancos. O estudo revela que a maioria das linhagens paternas dessa população veio da Europa e que 60% das linhagens maternas são ameríndias ou africanas.

A tela A redenção de Can (1895), de Modesto Brocos y Gomes,
representa a miscigenação entre brancos e negros no Brasil


Amostras de DNA da população do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil foram analisadas com base no cromossomo Y (200 indivíduos) e no DNA mitocondrial (247 indivíduos), para estabelecer linhagens paternas e maternas, respectivamente. A origem da maioria das linhagens encontradas foi estabelecida por comparação com estudos sobre populações de outros países, pois os haplogrupos (combinações de mutações na seqüência de DNA) já identificados têm distribuição geográfica restrita, com exceção do haplogrupo 2, que pode ter origem na Europa, Ásia ou África.

Origem geográfica e distribuição na população brasileira de haplogrupos
identificados em análises de cromossomo Y (linhagens paternas)


A análise do cromossomo Y identificou que 57% das linhagens paternas vêm da Europa (haplogrupo 1). O número aumenta se considerarmos que o haplogrupo 2 (19% da amostra) tem sua principal origem na Europa, pois é comum nos portugueses. A grande proporção do haplogrupo 2, sobretudo no Sul (28%) e Nordeste (19%), está ligada à imigração de outros europeus e à invasão holandesa, respectivamente. A alta freqüência do haplogrupo 21 (vindo da África do Norte e Mediterrâneo) em brasileiros (14%) explica-se por sua grande proporção em portugueses (12%), devido à invasão da península Ibérica pelos mouros na Idade Média. Assim, vêm da Europa entre 66% e 85% dos cromossomos Y analisados. Não foram encontradas linhagens paternas ameríndias (haplogrupo 18) na amostra.

Origem geográfica e distribuição na população brasileira das linhagens
maternas identificadas em análises de DNA mitocondrial


Os resultados do DNAmt foram mais uniformes: 33% de linhagens ameríndias, 28% de africanas e 39% de européias. As variações regionais são consideráveis: no Sul, 66% dos haplótipos são europeus (reflexo da imigração da Europa para a região nos séculos 19 e 20); no Norte, onde a presença indígena é elevada, 54% das linhagens maternas são ameríndias; no Nordeste, 44% das linhagens são africanas.

Os resultados revelam o padrão de reprodução do brasileiro e confirmam dados históricos sobre o povoamento do país após o descobrimento. Os primeiros imigrantes portugueses não trouxeram suas mulheres e iniciaram a miscigenação com índias e, a partir da segunda metade do século 16, com escravas africanas. O processo gerou um povo que, apesar da linhagem materna ameríndia ou africana e da linhagem paterna européia, ainda não vive em uma ‘democracia racial’.


Thaís Fernandes
Ciência Hoje on-line
09/01/01
 
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