Substâncias antioxidantes, como as vitaminas C e E e o beta-caroteno, são conhecidas por proteger o organismo da ação nociva dos radicais livres e prevenir problemas cardíacos. Mas a presença excessiva desses compostos pode surtir o efeito contrário. Estudo feito em camundongos e publicado hoje na revista
Cell
mostra que concentrações altas de antioxidantes no organismo podem prejudicar o funcionamento do coração.
O acúmulo de radicais livres (moléculas instáveis resultantes de reações intracelulares com o oxigênio que respiramos) no organismo causa o chamado estresse oxidativo das células, que pode levar ao envelhecimento e ao câncer. Para impedir a ação dessas moléculas, o consumo de antioxidantes (ou redutores) passou a ser apontado como alternativa. Substâncias que sofrem redução fornecem um elétron para as que antes sofriam de oxidação. Essas reações de oxidação e redução são comuns em nosso corpo, nas atividades de liberação e armazenamento de energia. No entanto, pesquisadores de instituições norte-americanas e de um centro de pesquisas na França constataram que a presença excessiva de antioxidantes no organismo pode acarretar um desequilíbrio inverso, o estresse redutivo, que também provocaria problemas cardiovasculares.
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A atividade da enzima G6PD promove agregação de proteína nas células (em destaque na imagem) e hipertrofia cardíaca em camundongos. (Crédito:
Cell
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A descoberta foi feita a partir de um estudo em camundongos que carregavam uma mutação no gene αB-crystallin, que expressa a enzima dehidrogenase de glucose-6-fosfato (G6PD). Essa mutação provoca a superexpressão da enzima, que leva à produção excessiva da proteína glutationa pelas células.
Segundo os pesquisadores, o acúmulo dessa proteína no tecido muscular esquelético do coração causa cardiomiopatia, cujos sintomas são o aumento do coração e a falha gradativa de suas funções. “A proteína já é encontrada na célula, no entanto, nesse caso de mutação, ela é usada para a degradação celular, o que faz aumentar os radicais livres e a quantidade de antioxidantes para neutralizá-los. É essa compensação que faz o coração parar de funcionar”, explica à
CH On-line
um dos autores do artigo, o médico Ivor Benjamin, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos.
Apesar de os pesquisadores esperarem um quadro de estresse oxidativo nos corações dos camundongos analisados, eles constataram que os níveis de oxidantes diminuíam consideravelmente, devido à abundância de glutationa. “O estresse oxidativo é conhecido como a principal causa da cardiomiopatia. Nossa descoberta foi o excesso de redutores (ou antioxidadntes) como o grande responsável pela doença”, destaca o pesquisador.
Segundo Benjamin, a regulagem da enzima G6PD é o principal tratamento para evitar o estresse redutivo. “A evidência genética nos camundongos indica que a diminuição da atividade da G6PD previne a manifestação da doença. Isso significa que drogas inibidoras da enzima podem fazer com que os pacientes melhorem”, avalia. “O nosso maior objetivo agora é provar que o estresse redutivo ocorre em humanos que apresentam o mesmo quadro.”
Fabíola Bezerra
Ciência Hoje On-line
10/08/2007