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Referência mundial em doença de Chagas
Herman Lent foi um dos dez cientistas cassados no 'massacre de Manguinhos'
Aos 91 anos, o biólogo Herman Lent trabalha diariamente no laboratório da Universidade Santa Úrsula e às terças-feiras no laboratório de entomologia do Instituto Oswaldo Cruz (Manguinhos), ambos no Rio de Janeiro. A vitalidade incomum permite que a maior autoridade em insetos transmissores da doença de Chagas (triatomídeos) continue publicando até hoje. Ele já assinou pelo menos 230 trabalhos -- entre eles, a mais completa obra sobre barbeiros.
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Lent no laboratório da UniversidadeSanta Úrsula (foto: arquivo H.Lent) | | |
Herman Lent passou 49 anos de sua vida no Instituto Oswaldo Cruz. Por uma exceção aberta pelo próprio Carlos Chagas, começou muito jovem como estagiário no laboratório de helmintologia do professor Lauro Travassos, seu grande mestre. Posteriormente, voltou-se para a entomologia (estudo dos insetos). Até ser cassado pelo regime militar, em 1970, atuou em Manguinhos como pesquisador e professor, editou as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e montou a coleção de barbeiros que conta atualmente com 24 mil exemplares e tornou-se em 1989 o Laboratório Nacional e Internacional de Referência em Taxonomia de Triatomídeos.
Hoje, o professor Herman realiza um "trabalho de lembrança do passado" no laboratório de entomologia do Instituto Oswaldo Cruz, criado cerca de 90 anos atrás. Divide a bancada com José Jurberg, que há 41 anos se tornou seu estagiário. "Ainda continuo achando que ele é meu professor, ele é minha referência sempre", reconhece Jurberg. "O Herman foi a segunda geração do laboratório, depois do Carlos Chagas e Arthur Neiva, que descobriram a doença de Chagas", conta Jurberg, um representante da terceira geração.
Herman Lent defendeu a criação do Ministério da Ciência e o desenvolvimento da pesquisa básica. "É preciso perceber que a tecnologia não nasce do nada", argumenta. "Ela nasce da ciência." Lent defende também a necessidade de o pesquisador registrar e divulgar seus resultados, como forma de expô-los à refutação.
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Lent diante de parte das publicações que editou ao longo da carreira (foto: Raquel Aguiar) | | |
A trajetória de Herman à frente de diversas publicações científicas reflete a importância que ele atribui à divulgação. A publicação de que ele mais se orgulha é a Revista Brasileira de Biologia, que ajudou a fundar em 1941. Lent foi ainda chefe da seção de História Natural da edição brasileira da Enciclopédia Delta Larousse e editor de diversas publicações da Academia Brasileira de Ciência, da qual é membro-titular desde 1966. "Temos que passar para diante a ciência em nosso idioma, nossa língua."
"Corri a minha vida fazendo ensino, pesquisa, examinando em bancas de doutorado", sintetiza. Lent lecionou em diversas instituições no Brasil e no exterior, foi condecorado Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico em 1995, é membro fundador da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e detentor do prêmio Costa Lima -- reconhecimento máximo na entomologia nacional.
No início de 2001, o professor Herman submeteu-se a uma cirurgia de catarata. "Estou vendo tudo sem óculos, só uso para longe", comemora. Pelo visto, o microscópio não vai ter descanso tão cedo.
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Herman Lent faleceu a 7 de junho de 2004, no Rio de Janeiro, aos 93 anos, de causas naturais. |
Raquel Aguiar Ciência Hoje/RJ julho/2001 |