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Cavaleiro andante da ciência
Maurício da Rocha e Silva descobriu a bradicinina e foi um dos fundadores da SBPC
Pouco após descobrir a bradicinina, no final dos anos 1940, o químico e farmacologista Maurício da Rocha e Silva (1910-1983) disse que um dia a substância seria vendida em ampolas. O potente vasodilatador de fato é amplamente empregado desde a década de 70 e representou melhora radical na expectativa e qualidade de vida de hipertensos, especialmente quanto a restrições dietéticas.
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Rocha e Silva, à direita, na primeira banca de doutorado em farmacologia da USP em Ribeirão Preto | | | Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (atual UFRJ), Rocha e Silva migrou nos anos 1930 para São Paulo e se destacou no Instituto Biológico. Em temporadas no exterior, pesquisou sobretudo a histamina. O descobridor da insulina, Charles Best, ficou tão impressionado com o talento do brasileiro que o convidou para ser seu assistente. Rocha e Silva recusou e mais tarde revelaria que "deixar o país para melhorar a vida financeira é de certo modo uma traição a nossos amigos e alunos".
Rocha e Silva tem mais de 300 trabalhos publicados em revistas como Nature e Science. Abordou também a filosofia da ciência e defendia que a criação intelectual é mais orientada pela intuição que pela razão. Ficou conhecido como um dos cavaleiros andantes na luta pela criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948, e defendeu a liberdade dos cientistas durante a ditadura militar. No final da década de 50, organizou o departamento de farmacologia e a pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. A aposentadoria compulsória -- "expulsória", como chamava -- foi decretada em 1980, aos 70 anos. Maurício faleceria três anos depois.
Entre outros, ganhou o prêmio Moinho Santista (1967) -- mais alta condecoração científica então existente no Brasil -- e o Prêmio Nacional de Ciência e Tecnologia do CNPq. Foi vice-presidente da União Internacional de Farmacologia, participou do Conselho Federal de Educação, foi membro-fundador da Sociedade Brasileira de Fisiologia (1957) e da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (1966).
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Rocha e Silva entre formandos da última turma que acompanhou na pós-graduação da USP, três anos antes de falecer | | |
"Meu pai era uma personalidade difícil de definir", revela o filho de Rocha e Silva, que se chama Maurício e é fisiologista como o pai. Médico do Instituto do Coração de São Paulo, Maurício admite que o pai exercia grande fascínio sobre seus próximos, mas se envolvia em muitas brigas -- ainda que reversíveis. Maurício acredita que o pai é o brasileiro que melhor preenche o perfil de ganhador do Nobel. "Ele sempre sonhou com o prêmio, mas achamos que deixou de ser agraciado porque brigou com um número excessivo de pessoas ligadas à escolha."
Rocha e Silva considerava a ciência a única atividade válida para o homem. Gostava de máximas e admirava esta, do pensador inglês Bertrand Russell: "Não acredite numa coisa sem ter uma boa razão para fazê-lo." Após ter trabalhado com o pai no início da carreira, Maurício revela ter descoberto que "meias provas, meias verdades e meia lógica eram consideradas por ele como prova nenhuma, mentira total e falta de lógica".
Raquel Aguiar Ciência Hoje/RJ novembro/2001 |