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A paixão pelas serpentes
Vital Brazil criou soros capazes de combater o veneno de várias espécies de cobras
"Não tenho orgulho de minha pobre ciência, mas estou satisfeito com minha alma e meu coração. Para uma alma bem formada não há como fazer bem aos outros; o bem que consegui fazer é que conforta e tranqüiliza meu velho coração." Vital Brazil, aos 84 anos, ao ser homenageado no programa Honra ao Mérito, da Rádio Nacional
Fazer do combate de acidentes provocados por picadas de cobras a grande meta de sua vida: esse foi o projeto do médico Vital Brazil Mineiro da Campanha. Após cinco anos de pesquisas obstinadas, ele chegou a sua maior descoberta: o soro antiofídico, que serve para combater o efeito do veneno tanto de jararaca quanto de cascavel. Até o advento do soro, 25% dos acidentes com cobras venenosas resultavam em morte. Hoje, o percentual é de apenas 0,4%.
Vital Brazil desenvolveu esse soro -- hoje chamado antibotrópico/crotálico -- no Instituto Butantan, em São Paulo, onde trabalhou por vinte anos. Suas pesquisas experimentais de soros contra venenos de cascavel e jararaca tiveram início em 1897. Vital provou que o veneno de ambas só poderia ser neutralizado pelo soro específico de cada espécie: estava estabelecido assim o conceito da especificidade da soroterapia. Até então, acreditava-se que o soro do cientista francês Albert Calmette (1863-1933), baseado em cobras naja, inexistentes no Brasil, era universal, ou seja, serviria para picadas de cobras de qualquer espécie.
Nascido a 28 de abril de 1865, Vital tornou-se médico em 1891. Ao se mudar para Botucatu (SP), constatou grande incidência de acidentes ofídicos (causados por picadas de cobras), devido ao desmatamento de florestas para a plantação de mudas de café. Isso despertou a curiosidade do médico, que começou a investigar os acidentes e suas possíveis curas. Aos poucos, seu lado clínico foi cedendo lugar ao de pesquisador.
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Vital Brazil extrai o veneno de uma serpente com a ajuda de um auxiliar | | |
Nessa época, a peste bubônica ameaçava a vida de milhares de brasileiros, e o soro antipestoso contra a doença produzido na Europa demorava muito a chegar. Coube a Vital Brazil a fabricação local desse soro. O fato de ter contraído essa doença e febre amarela durante seu trabalho não o impediu de levar adiante seus estudos -- ele realizaria pesquisas nas áreas de biologia, bioquímica e farmacologia.
Vital Brazil faleceria a 8 de maio de 1950. Em vida, recebeu de cientistas das mais conceituadas instituições internacionais o reconhecimento da importância de sua descoberta. "Quando estive no Instituto Pasteur, de Paris, fiquei muito emocionado quando, ao término de uma conferência, mostraram-me a assinatura do Vô Vital no livro de atas das reuniões científicas", diz o bisneto do pesquisador, Osvaldo Sant'Anna.
"Vital Brazil legou ao povo brasileiro uma gigantesca obra, patrimônio da ciência nacional reconhecida e respeitada em todos os centros científicos do mundo", diz Lael Vital Brazil, seu penúltimo filho. Em março de 2002, essa obra foi reunida no livro Vital Brazil: obras científicas completas, organizado por André Pereira Neto, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. André prepara ainda o livro em CD-ROM e uma biografia do cientista. "Vital foi um cientista que, com perseverança, aproveitou seu tempo e construiu conhecimento de acordo com as necessidades da sociedade", diz.
Juliana Martins Ciência Hoje on-line agosto/2002 |