Tradição e modernidade no Museu do Índio
Exposição sobre a tribo Kuikuro discute, no Rio de Janeiro, o uso da tecnologia a serviço dos velhos costumes
Como manter vivos os velhos costumes em um tempo de novas tecnologias? Essa pergunta já tomou conta da cabeça do chefe da tribo Kuikuro, um dos povos indígenas que habitam a região do Alto Xingu, no norte do Mato Grosso. Os resultados dessa reflexão estão na exposição ‘
Tisakisü
– tradição e novas tecnologias da memória’, em cartaz no Museu do Índio, no Rio de Janeiro. O evento conta com 100 fotos e 11 vídeos que mostram os rituais e a cultura desses índios, além de dois documentários produzidos pelos próprios xinguanos. A exposição discute, através de belas imagens e importantes declarações, a polêmica questão de como utilizar as tecnologias modernas a serviço da tradição.
O Alto Xingu (região onde o rio Xingu se forma) sempre foi um território marcado por uma grande diversidade cultural, lingüística e étnica. Durante séculos, os povos do Xingu conviveram com a transformação de seus rituais, festas e pensamentos. Nas últimas décadas, porém, o mundo não-indígena invadiu o cotidiano das tribos, transformando o dia-a-dia desses povos: crianças desejam ser alfabetizadas e falar bem o português, casas possuem televisão, os jovens querem ser assalariados. O desinteresse pela tradição e pelo aprendizado dos cantos por parte das novas gerações ameaçava acabar com a cultura tradicional.
Nesse contexto de mudanças, o chefe da tribo Kuikuro teve a idéia de, através das tecnologias de memória do mundo não-indígena, documentar os costumes de seu povo, a fim de motivar os jovens a valorizar sua tradição. “A idéia do chefe Afukaka era que nós fizéssemos o filme. Mas apresentamos a ele um projeto em que os próprios indígenas montariam suas produções”, explica o curador da exposição, o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Segundo Fausto, os filmes foram produzidos durante oficinas ministradas por sua equipe desde 2002. “Os índios participaram de todas as etapas de montagem, desde a captura de imagens até a edição, sempre em parceria conosco e com profissionais da área.” Desse trabalho surgiu o documentário “
Nguné Elü
: o dia em que a lua menstruou”, dos cinegrafistas Mariká Kuikuro e Takumã Kuikuro, que recebeu o prêmio Chico Mendes de melhor documentário na mostra Vídeo nas Aldeias, no Festival de Rondônia, em 2004 – para ver um trecho do filme,
clique aqui
e baixe o arquivo (9 MB).
Mais do que documentar
A exposição é o resultado dessa troca de informações entre o mundo não-indígena e a tribo Kuikuro. Enquanto os documentários são produzidos pelos índios, as fotos e outros vídeos foram feitos por antropólogos que conduziram o projeto. A solução para o paradoxo tradição e modernidade, no entanto, mostra-se longe de ser alcançada. O projeto não apresenta – nem deseja apresentar – respostas definitivas às perguntas que o guiam: “para quê e para quem guardar?” e “como manter viva a tradição em um contexto de mudança?”.
O trabalho não se restringe a uma documentação antropológica de uma tribo xinguana. Ele também tem grande importância como forma de incentivar a reflexão na sociedade em torno de uma das maiores polêmicas da atualidade: a convivência entre tradição e modernidade. “Uma tradição só sobrevive se estiver viva e, se estiver viva, estará em transformação. Afinal, tudo muda – a questão é saber como e para onde. Não temos resposta para isso, mas acreditamos que esse passado, ao invés de puxar-nos para trás, impele-nos para frente”, conclui Fausto.
A exposição está em cartaz no Espaço Museu das Aldeias, no Museu do Índio, que fica na rua das Palmeiras, número 55, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Mais informações no telefone (21) 2286-8899, ramal 230, ou no
site do Museu
. O horário de visitação é de terça a sexta, das 9h às 17h30m, e sábados e domingos, das 13h às 17h, até o dia 30 de julho. A entrada é gratuita.
Mariana Benjamin
Ciência Hoje On-line
19/01/2007
|
|
 |
|
 |
|
Veja algumas fotos da exposição. Clique nas imagens para ampliá-las. Fotos: Carlos Fausto (exceto quando mencionado)
.
|
|
|
|
|
Índios da tribo Kuikuro na festa
Hagaka
, em que eles “queimam” a saudade do morto homenageado.
|
|
|
|
|
Na festa
Hagaka
, também acontece uma falsa guerra, em que os adversários brigam por meio de xingamentos e se ferem com dardos de ponta cega, envolta em cera de abelha. Para os Kuikuro, essa imitação de guerra ajuda a manter a paz.
|
|
|
| Mulher se preparando para um ritual da tribo Kuikuro. Nas últimas décadas, o mundo não-indígena invadiu o cotidiano da tribo e transformou os interesses e valores das novas gerações. |
|
|
|
| Índias na praça central de uma das três aldeias que compõem a tribo Kuikuro, formada por 600 pessoas. As aldeias são circulares, com as casas formando um anel em torno de uma grande praça, onde acontecem as festividades. |
|
|
| Para que as tradições da tribo Kuikuro não desaparecessem, os próprios xinguanos, em parceria com antropólogos e profissionais da área, documentaram os rituais por meio de tecnologias não-indígenas de memória. (Foto: Vincent Carelli). |
|