A fauna secreta de um estado
27 novas espécies de animais e plantas foram registradas no Amapá após dois anos de pesquisas de campo
O Amapá abriga uma fauna e flora mais rica do que a que se conhecia até hoje, como revelaram os resultados de onze expedições científicas realizadas no estado ao longo de dois anos por pesquisadores da organização não-governamental Conservação Internacional (CI).
Foram registradas 1.700 espécies nas unidades de conservação Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque, Floresta Nacional do Amapá e Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru. Mais de cem nunca haviam sido vistas no Amapá, uma foi considerada redescoberta e pelo menos 27 delas não eram conhecidas pela ciência.
Os pesquisadores são unânimes ao descrever a principal característica da região: alta biodiversidade. No grupo dos crustáceos, foram três novas espécies descobertas e cinco inéditas no estado. Os répteis e anfíbios ficaram com oito espécies desconhecidas, três inéditas no Brasil e mais de 50 no Estado. Peixes foram os campeões: dez novas, uma original para o Brasil e trinta para o Amapá.
“A falta de estudos sobre essas áreas é o principal motivo pelo qual tantas espécies eram desconhecidas. Os últimos trabalhos eram de mais de vinte anos atrás”, revela a bióloga Ana Carolina Martins, responsável pela identificação de 46 novas espécies de morcegos para o estado.
Caça e pesca
A conservação dessas unidades preocupa a bióloga Cecile de Souza Gama, especialista em peixes. “Encontramos muitos indícios de pesca e caça. Levando em conta que existem espécies novas circulando por ali, isso deveria ser evitado”. Mesmo assim, Cecile não teve do que reclamar. “Busquei identificar espécies de peixes pequenos, geralmente desconhecidos até por quem vive lá. Voltei com mais de 300 para serem analisadas”, conta.
A bióloga Inácia Maria Vieira, especialista em crustáceos, também obteve bons resultados com seu grupo. “Caranguejos de regiões mais elevadas, como as pesquisadas, são geralmente pouco estudados”.
Outra boa notícia ficou por conta da redescoberta do lagarto
Amapasaurus tetradactylus
, que há 36 anos não era visto na região. “Essa espécie até então era conhecida por apenas dois exemplares e por isso tinha a sua validade questionada”, afirma o biólogo Enrico Bernard, Gerente do Programa Amazônia da CI e coordenador do projeto. “Ela também parece ser endêmica de uma área específica do Amapá e registrá-la novamente nos permite aprofundar os estudos sobre a sua distribuição e entender sua relação com outras espécies e os processos evolutivos na Amazônia”.
Espécies raras e endêmicas
O trabalho auxiliará o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na criação dos planos de manejo dessas três unidades. “Várias dessas espécies são raras, várias são endêmicas e algumas estão nas listas de espécies ameaçadas”, conta Bernard.
“As informações biológicas auxiliam no processo de zoneamento da unidade, indicando quais são as áreas de maior ou menor diversidade, quais contêm espécies sensíveis ou ameaçadas e quais apresentam potencial para visitação com fins turísticos, por exemplo”, explica. “As ocorrências estão sendo publicadas em periódicos científicos, as espécies novas estão sendo descritas ou enviadas a especialistas para descrição”.
Juliana Tinoco
Ciência Hoje On-line
18/09/2006
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Veja algumas das espécies encontradas. Clique nas imagens para ampliá-las
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| O uirapuru-estrela (acima) e o araçari-negro são aves endêmicas do norte do rio Amazonas e oeste do rio Negro. Espera-se que ao menos uma das espécies de aves identificadas seja desconhecida (foto: Luiz Antônio Coltro Jr.). |
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| Estima-se que o Amapá abrigue mais de 600 espécies de aves, como o araçari-negro. “Esse grupo é um bom indicador da qualidade do ambiente”, revela o ornitólogo Luiz A. Coltro Jr., autor da foto. |
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O
Amapasaurus tetradactylus
não era visto no estado há 36 anos. O lagarto foi encontrado em uma unidade de conservação, o que indica que pode não estar ameaçado (foto: Enrico Bernard).
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O sapo
Atelopus spumarius
, encontrado na Reserva Iratapuru. (foto: Enrico Bernard).
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Chrotopterus auritus
é uma espécie de morcego carnívora. Na Amazônia, estima-se que haja 150 espécies diferentes de morcegos (foto: Ana Carolina Martins).
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