“Na universidade se ensina porque se pesquisa”
Leia o perfil de Carlos Chagas Filho, nome fundamental na história da institucionalização da ciência no Brasil
Se estivesse vivo, um dos grandes nomes da ciência brasileira no século 20 completaria hoje 96 anos. Carlos Chagas Filho (1910-2000) desempenhou papel fundamental na consolidação da profissão de pesquisador científico no país. Com seus contatos influentes, carisma e o ilustre nome que carregava de seu pai, descobridor da doença de Chagas, ele ajudou a instaurar a pesquisa na universidade brasileira e criou meios para seu desenvolvimento.
Se hoje nossas universidades fazem ciência, é em parte porque ele teve a coragem de estabelecer, aos 27 anos, um laboratório de pesquisa na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ). Antes dele, nomes importantes da ciência brasileira, como os irmãos Miguel e Álvaro Ozorio de Almeida, haviam feito tentativas fracassadas nesse sentido.
Oito anos depois (1945), Chagas Filho conseguiu transformar seu laboratório em instituto, que viria a formar líderes que dessem continuidade ao seu projeto. Seu legado mais importante, o Instituto de Biofísica, inovou ao adotar o lema “Na Universidade se ensina porque se pesquisa” e abriu caminho para o surgimento de novas instituições do tipo. Hoje, é um dos centros de investigação científica mais prestigiados do país.
Outras contribuições significativas de Chagas Filho para a institucionalização da ciência no Brasil foram o incentivo à criação do Conselho Nacional de Pesquisas, hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq – principal órgão público que regulamenta e financia pesquisas) e a instauração da pós-graduação na universidade.
Chagas Filho buscava em fontes variadas fundos para financiar suas idéias grandiosas: Congresso Nacional, fundações e instituições nacionais e estrangeiras e personalidades de visão. A facilidade que tinha em conseguir recursos se deu em parte por sua familiaridade com o meio científico, por influência de seu pai, e foi acentuada por seu casamento com Anna Leopoldina de Mello Franco, filha do jurista Afrânio de Mello Franco e irmã de Afonso Arinos, que mais tarde se tornaria senador e ministro das Relações Exteriores.
Pesquisas científicas
O instituto criado por ele seguiu, inicialmente, linhas de pesquisa que buscavam entender a atividade elétrica de um peixe amazônico (o poraquê), desenvolver o cultivo inovador em tecido do
Trypanosoma cruzi
(causador da doença de Chagas) e investigar a ‘depressão alastrante’ – fenômeno descoberto por Aristides Leão, ligado aos mecanismos cerebrais da epilepsia e enxaqueca. O centro integrou estudiosos de diferentes áreas e introduziu novas técnicas científicas no país, como o registro de potenciais elétricos, cromatografia, eletroforese, microscopia eletrônica e ultracentrifugação.
Um dos colaboradores mais antigos do instituto foi a química Aída Hassón Voloch, que até hoje trabalha com o poraquê na UFRJ e com quem Chagas Filho desenvolveu, em 1954, um trabalho de cromatografia aplicada ao controle de
doping
. “Chagas conhecia tudo a respeito da ciência, do desenvolvimento e das pessoas. Ele sabia como deveria funcionar o instituto”, conta Aída. “E sem nunca levantar a voz ou insultar alguém”.
Chagas Filho foi ainda um professor e administrador admirado por todos aqueles que o cercavam. Os biólogos Claudia Mermelstein e Manoel Costa, hoje casados, foram seus últimos alunos, e se lembram com carinho das aulas de metodologia científica e introdução à físico-química. “Chagas Filho foi um exemplo para que eu não limitasse minha curiosidade e tivesse uma concepção mais ampla da ciência e da vida, tendo sempre em mente um compromisso social”, conta Manoel. “Ele tratava igualmente todos os funcionários do instituto, fossem eles administradores, faxineiros, professores ou pesquisadores”, prossegue Claudia. “Sabia, inclusive, o time de futebol de cada um”.
Preocupação social, ciência e religião
Preocupado com o papel da ciência no rumo da sociedade, Chagas Filho trabalhou para a Organização das Nações Unidas em um estudo sobre os efeitos das radiações ionizantes, após o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, e em um projeto que pretendia construir uma base científica e tecnológica em nações que apenas começavam a se estruturar. Foi ainda, nos anos 1960, o representante brasileiro junto à Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (Unesco), em Paris.
Muito religioso e proveniente de família católica, Chagas Filho acreditava não haver incompatibilidade entre a verdade científica e a religião, coisas que tratam de espaços diferentes, mas não antagônicos. À frente da Academia Pontifícia do Vaticano, promoveu um forte trabalho de aproximação entre ciência e religião. Empenhou-se pela reabilitação de Galileu pelo papa João Paulo II, realizou a datação do Santo Sudário e liderou uma mobilização da comunidade científica internacional pela paz e pelo desarmamento atômico, por meio de um documento que alertava o mundo sobre os riscos de uma guerra nuclear.
“A lição que ele deixou foi que a ciência é uma manifestação cultural da sociedade e patrimônio de todos, não de um único país ou instituição”, afirma o bioquímico da UFRJ Vivaldo Moura Neto, que trabalhou em colaboração com Chagas Filho até o final de sua vida. “Ele foi um dos grandes nomes do Brasil no cenário nacional e internacional, uma pessoa marcante e de extraordinária capacidade humanista”.
Marina Verjovsky
Ciência Hoje On-line
12/09/2006
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Clique nas imagens para ampliá-las. Salvo quando mencionado, as fotos foram reproduzidas do livro
Um aprendiz de ciência
(Nova Fronteira / Fiocruz, 2000)
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| Chagas Filho estudante de medicina em 1926, diante do Hospital Oswaldo Cruz, mais tarde Hospital Evandro Chagas, onde fez sua iniciação científica com José Guilherme Lacorte. |
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| Posando junto a equipamento de eletrofisiologia em 1957. |
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| Foto do acervo pessoal do geneticista Darcy Fontoura de Almeida. Carlos Chagas Filho quando delegado do Brasil junto à Unesco (1966-1970). Ao fundo, na parede, foto de Carlos Chagas pai e diploma de doutor Honoris causa concedido pela Universidade de Clermont-Ferrand, França. (foto: Unesco/Dominique Roger). |
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Chagas Filho com dona Annah e suas “quatro filhas únicas” – a partir da esquerda: Anna Margarida, Maria da Glória, Silvia Amélia e Cristina Izabel, no lançamento do livro
Meu pai
, em 1993.
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| Primeiros passos do Instituto de Biofísica, na cadeira de física biológica, em 1938. |
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| Ao presidir a sessão inaugural do Comitê de Estudos para Aplicação da Ciência e da Tecnologia ao Desenvolvimento, em 1964. |
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| Cumprimentado por Paulo VI na posse de presidente da Academia Pontifícia de Ciências, em 3 de novembro de 1972. |
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