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 NOTÍCIAS :: BOTÂNICA

Por dentro dos cristais das plantas
Pesquisadores investigam biominerais para entender suas funções e propriedades


Aglomerado de cristais com pontas que se projetam na superfície em uma folha de figo-da-índia (Opuntia ficus-indica) (fotos: Élder Paiva). 

Pode parecer estranho, mas o cristal da foto ao lado foi produzido por uma planta. Muitos vegetais costumam sintetizar esses biominerais, que chegam a ocupar 90% do volume de algumas células e podem ajudá-los a se defender de certos predadores ou permitir que a polícia identifique se restos de cinzas pertenceram a plantas ilícitas. No Brasil e no mundo, botânicos estudam essas estruturas para entender melhor sua função e suas propriedades.

Os biominerais podem existir em diferentes formas, mas geralmente cada espécie vegetal possui um tipo particular. Quando são pontiagudos, podem perfurar a mucosa da boca de quem mastigar as folhas de certas plantas. Naquelas que produzem toxinas, como a Dieffenbachia (mais conhecida como comigo-ninguém-pode), essa perfuração faz com que a toxina entre dentro da mucosa, o que pode causar reações alérgicas graves. É assim que os cristais ajudam a planta a se defender de predadores, geralmente mamíferos comedores de plantas, ou apenas crianças desavisadas.

Encantado pela beleza dessas estruturas, o botânico Élder Paiva, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é um dos cientistas que tentam, através de análises químicas e observações ao microscópio, desvendar as suas funções. Ele conta que os cristais costumam ser formados pelo mineral oxalato de cálcio, a mesma substância que provoca pedras nos rins em mamíferos. “A ingestão de alguns desses vegetais pode, inclusive, favorecer a formação do cálculo renal em indivíduos que têm propensão para desenvolvê-los”, afirma.

A estrutura pontiaguda em destaque é um cristal produzido em uma folha de comigo-ninguém-pode (Dieffenbachia seguine) saindo do interior da célula. Esse biomineral possibilita a entrada da toxina da planta diretamente dentro da pele e pode causar reações alérgicas graves. 

Ao longo de seus estudos sobre esses cristais, Paiva descobriu que eles têm um papel importante na regulação da quantidade de cálcio no vegetal. “A formação dessas estruturas resolve em parte o problema de excesso de cálcio dentro da célula, pois o inativa na forma cristalizada”, explica.

Além de funcionais para a planta, os cristais permanecem intactos mesmo após a sua morte, decomposição ou queima. Assim, a polícia identifica restos de maconha presentes em cinzas (através dos cristais de carbonato de cálcio – incomuns em outras plantas) e os paleobotânicos podem determinar se povos antigos cultivavam determinados vegetais ou se alguns dinossauros comeram grama.

Porém, ainda estamos longe de entender plenamente essas fascinantes estruturas. Ainda não se sabe, por exemplo, contra quais animais herbívoros elas são capazes de proteger o vegetal, pois muitos já desenvolveram mecanismos capazes de quebrar as barreiras impostas pela presença do cristal. “Existem controvérsias sobre o assunto no meio acadêmico”, conta Paiva. “Por isso, pretendemos pesquisar mais sobre a função dos cristais na planta e sua atuação na proteção contra insetos.”



Marina Verjovsky
Ciência Hoje On-line
10/07/2006

 

 
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