Foi preciso apenas um mês na remota região das montanhas Foja, na Nova Guiné, para que um grupo internacional de pesquisa, coordenado pela ONG Conservação Internacional (CI), descobrisse cerca de 150 novas espécies de animais e plantas. A busca, realizada em dezembro, resultou no primeiro registro fotográfico de diversas espécies raras, como a ave-do-paraíso (Parotia berlepschi), suspeita de estar extinta há 100 anos.
A sorte parecia estar com os cientistas. Ainda montando o acampamento, eles avistaram uma ave. Logo de primeira, uma nova espécie. No segundo dia de busca, eles conseguiram observar a dança do acasalamento de um macho da ave-do-paraíso. Foi a primeira vez que pesquisadores ocidentais testemunharam esse ritual.
Contando com a ajuda de dois membros das etnias Kwerba e Papasena, nativas da região, e de um helicóptero, os cientistas puderam chegar a locais de difícil acesso, onde sequer havia trilhas. Segundo Beehler, até os nativos, que vivem no sopé das montanhas, se surpreenderam com o local. "Eles ficaram tão impressionados quanto nós ao ver quão isolado era o lugar", comentou.
Com uma extensão de um milhão de hectares (cerca de nove vezes a área da cidade do Rio de Janeiro), a floresta de Foja é uma das maiores áreas de mata tropical intacta da região.
Entre as descobertas, merecem destaque a ave-do-mel-de-face-alaranjada, a primeira nova espécie de sua classe encontrada em Nova Guiné nos últimos 66 anos; uma flor de 15 cm, provavelmente a maior do gênero Rhododendron; e uma rã de apenas 14 mm. Além disso, espécies raras, como a equidna-de-bico-longo, um mamífero semelhante a um ouriço e que coloca ovos, e o canguru-da-árvore, que só fora achado na Papua Nova Guiné, também foram observadas.
Foram descobertas 20 novas espécies de anfíbios, quatro novas borboletas e pelo menos cinco novas plantas. Porém, para que elas sejam confirmadas como novas espécies, os registros dos pesquisadores devem ser publicados em um periódico científico e passar pela análise de especialistas.
Ameaça à floresta
Os coordenadores do projeto afirmaram que, por enquanto, a floresta não corre risco de sofrer ações predatórias do homem, já que os únicos habitantes locais são de duas etnias, que encontram tudo o que precisam para a subsistência perto de suas aldeias. Além disso, não há sistema de transporte ou estradas e, por se tratar de um santuário de vida selvagem, o governo local não fornece permissões de exploração madeireira no local.
Beehler, porém, alerta que o desenvolvimento de países vizinhos, principalmente a China, pode criar nos próximos anos uma enorme procura por madeira, entre outros recursos encontrados na floresta, o que representaria um risco à biodiversidade local. “Com o tempo, tudo isso pode ficar ameaçado”, adverte.
A equipe de pesquisadores admite que o período de buscas não foi suficiente para explorar todo o local e que pode haver ali outras espécies desconhecidas. De acordo com Beehler, uma nova expedição para o mesmo local poderá acontecer antes do final do ano.