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[1Os açudes nordestinos
 Vista parcial do Açude Poço da Cruz
O Nordeste brasileiro tem cerca de 70.000 açudes de superfície superior a 1000 m2. Trata-se da segunda região do mundo em quantidade de reservatórios, perdendo apenas para a Índia. Desenvolvidos para suprir água durante os períodos de seca que atinge o clima semi-árido brasileiro, eles são utilizados para irrigação, criação de gado, pesca ou uso doméstico. Porém, a baixa pluviosidade e a evaporação intensa da região (que pode chegar a três metros por ano) fazem com que os açudes apresentem baixa profundidade (inferior a 10 metros, em média) e alta salinização da água, que limitam sua utilização na agricultura e no abastecimento.
[2] Peixes onívoros e carnívoros
 Tilápia do Nilo, uma espécie onívora
Os peixes onívoros, como a tilápia do Nilo, a curimatã, o tambaqui e a carpa, alimentam-se de fitoplâncton, zooplâncton e detritos. Vivem geralmente em ambientes rasos e removem o fundo para conseguir alimento. Adaptaram-se com facilidade aos açudes do Nordeste brasileiro, pois resistem a baixos teores de oxigênio, proliferação de algas e alta salinidade. Esses peixes apresentam elevada reprodução: as tilápias, por exemplo, reproduzem-se a cada 3 meses. Nos lagos e reservatórios tropicais, seus predadores são de pequeno porte (como a traíra). Por isso, os onívoros costumam dominar o ambiente.
O tucunaré é um carnívoro da mesma família (Cichlideo) das tilápias Já os peixes predadores, como a piranha, a traíra, a pescada do Piauí, o tucunaré e a pirambeba, consomem os peixes chamados forrageiros (como piabas, piaus e sardinhas, que não ultrapassam cinco ou seis centímetros de comprimento), moluscos, camarões e insetos. Alguns predadores alimentam-se apenas de outros peixes, e são chamados "piscívoros". Os que se alimentam de outras presas além de peixes são chamados "carnívoros". Semelhante aos peixes onívoros, a pescada do Piauí, um predador, também suporta bem a alta salinidade das águas dos açudes, por ser um peixe de origem marinha.
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| NOTÍCIAS :: ZOOLOGIA |
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Otimização da piscicultura nos açudes Predominância de espécies carnívoras ou onívoras afeta a qualidade da água |
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Os açudes do Nordeste brasileiro têm um grande e sub-aproveitado potencial para a pesca. O manejo pesqueiro pode também servir para controlar a qualidade da água. Essas são algumas das conclusões práticas do Projeto Açudes, realizado por uma parceria entre o Departamento de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e o Institut de Recherche pour le Développement (IRD), um instituto francês de pesquisa para o desenvolvimento, no âmbito de um convênio com o CNPq. A partir de campanhas de pesca experimental, de coletas de plâncton e da análise da qualidade da água dos reservatórios, o hidrobiólogo Xavier Lazzaro identificou os modelos mais apropriados de criação de peixes em função do tipo de uso que se quer dar à água dos açudes.
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Pôr-do-sol no açude de Carpina (perto de Recife, PE) (fotos cedidas por Xavier Lazzaro) | | | A água dos açudes nordestinos[1] tem temperatura ideal para a pesca, e é rica em fósforo e nitrogênio - nutrientes essenciais das cadeias alimentares nos reservatórios. A concentração desses elementos é favorecida pela baixa pluviosidade e pelo grande índice de evaporação no Nordeste. Os nutrientes são assimilados pelas microalgas (ou fitoplâncton), que são consumidas por pequenos crustáceos (ou zooplâncton), que são predados pelos alevinos dos peixes. Eles controlam também o crescimento do fitoplâncton. No entanto, o excesso de fósforo em relação ao nitrogênio pode favorecer a reprodução excessiva de cianobactérias, tipo indesejável de microalgas que podem contaminar a água dos açudes com florações, dificultando seu tratamento para consumo.
A predominância de peixes carnívoros ou onívoros[2] nos açudes influencia a abundância das mircroalgas, como indica a concentração em clorofila. Os pesquisadores do Projeto Açudes constataram que isso deve ser levado em conta para definir o uso da água (doméstico ou para pesca). Açudes predominantemente povoados por peixes predadores têm menos clorofila, e sua água é mais própria para o consumo doméstico. Já os peixes onívoros remexem o fundo dos açudes em busca de sedimentos, ricos em detritos e microorganismos. Isso libera o fósforo originalmente preso nos sedimentos e favorece o crescimento do fitoplâncton, beneficiado também pela grande quantidade de fósforo proveniente da excreção dos peixes onívoros.
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Pescador de linha em canoa no maior açude público de Pernambuco (o Poço da Cruz, em Ibimirim), com uma capacidade de 504 milhões de m3 | | | Atualmente, as espécies onívoras predominam nos açudes pernambucanos, pois suas taxas de crescimento e reprodução são altas, o que torna sua criação mais rentável que a dos carnívoros. Isso favorece o enriquecimento em nutrientes e microalgas, que deteriora a qualidade da água. "Essa é uma situação difícil em uma região com falta d’água", avalia Lazzaro. Com a bióloga Zélia Nunes, da UFRPE, ele testou em Pernambuco um policultivo comum em Israel, que combina a criação de tipos diferentes de peixes onívoros. "Para aumentar a produtividade pesqueira em açudes de uso múltiplo, é preciso equilibrar a proporção de carnívoros em relação aos onívoros", explica Lazzaro. "Já em açudes voltados para o abastecimento de água, deve-se aumentar a dominância de carnívoros, para reduzir a concentração de microalgas." As informações científicas estão disponibilizadas para as instituições parceiras para promover um manejo pesqueiro integrado, controlar a qualidade da água e treinar profissionais na gestão de açudes do clima semi-árido. |
Mara Figueira Ciência Hoje On-line 26/07/00 |
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